quarta-feira, maio 27, 2009

O labirinto das palavras

Mais um texto pro "encaixe a frase" da revista Piauí. A frase é a primeira...
No mais, segue o texto logo abaixo.


Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto.
Sinto que minhas conjecturas já não geram os frutos de outrora.
As letras embaralham-se zombando de mim, e as palavras, essas cretinas, não surgem mais com a fluidez que costumava ser de praxe.
Estaria eu, aos poucos, desaprendendo a raciocinar sobre as coisas mundanas?
Esta possibilidade me amedronta, pois se realmente estiver me tornando cada vez mais burro não há como garantir se amanhã ainda terei a percepção de saber menos que hoje. Afinal, não há como se saber sobre algo que já não mais se sabe, certo?
Talvez até estas próprias divagações estúpidas sejam o reflexo dum processo irreversível que enfraquece diariamente as minhas sinapses. Difícil dizer.
Mas e agora, José? Não posso ter certeza de nada, e, muito menos ainda, do tudo ou de qualquer outra coisa que se situe entre o nada e o tudo.
Só sei que nada sei, já diria o tal cara, qual é mesmo o nome? Rivelino? Não, não! Sócrates! Sim, Sócrates! Grande cara.
Neste exato instante me atento a uma coisa: Se estou mesmo cada vez mais burro, preciso aproveitar meus últimos lampejos de razão da melhor forma possível.
Desvendar a condição humana, quem sabe? Melhor tentar ainda hoje, já que amanhã pode ser tarde demais...
Pronto. Marcado. Três e meia, reunião com fornecedores. Quatro e quarenta e cinco, desvendar a condição humana.
E o que mais? Não sei. Não há mais muito que se fazer... Ou não. Preciso pensar.
Será que não há nenhuma forma de reverter esta situação sufocante?
Deve haver algo que possa ser feito para me livrar desse fardo horrível chamado ignorância.
Já sei: Nunca mais compro estas palavras cruzadas nível dificílimo. Sempre acabam em frustração.

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segunda-feira, fevereiro 09, 2009

REVISTA PIAUÍ: Durante Fevereiro a taça é nossa...

Caros subversivos:

É com imensa satisfação que venho através destas mal traçadas informar que o concurso “encaixe a frase” da REVISTA PIAUÍ do mês de Fevereiro já tem um vencedor.
Não achei nada no site deles... Descobri hoje, agora pouco, quando chegou a revista número 29 lá em casa (pois é, eu assino)...
Não havia publicado aqui no blog por um simples motivo: Achei que tinha ficado uma merda.
Mas agora que o texto ficou famoso, vou dar uma chance, afinal, gosto é como ânus: Cada um tem o seu.
No mais, segue o dito cujo na íntegra, logo abaixo.
A frase encaixada é a primeira, que é pra começar rasgando.

Saudações entusiásticas,
Marcos Alfred Brehm, o fodástico.

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Divagações esquizofrênicas de ordem aleatória

Eu gostaria que meu pai ou minha mãe, ou os dois, já que ambos tinham a mesmíssima responsabilidade, houvessem refletido sobre o que estavam fazendo quando decidiram me conceber. Como prole de doidos em tempos de loucos, acabei por nascer maluco.
Contudo não os culpo. Ao contrário do que possa ter transparecido, não possuo quaisquer mágoas em relação à existência, minha ou de outrem. Não, não é este o caso, muito embora prefira, por óbvio, a mágoa, ou qualquer outro objeto pontiagudo, antes no de outrem do que no meu. Coração, pois sim.
Todavia, há de se convir: O mar não está pra peixe. Nossas cercanias já não são mais as mesmas no que tange aos píncaros literários de outrora. Dentre tantas outras mazelas, machado voltou a ser apenas ferramenta cortante e pessoa por ora se escreve com pê minúsculo. Uma lástima, enfim.
A elegância, muito em voga em tempos que não voltam mais, envergonhou de um dia ter abrolhado e resolveu, sem mais para o momento, resignar-se aos becos sombrios do olvido.
Já não mais vivemos tempos de se amarrar cachorro com lingüiça, pois como muito bem se sabe, quando há cachorro, não há lingüiça. E, como não poderia deixar de ser, vice-versa.
Aliás, eventuais aparições lingüísticas de ordem perspicaz poderiam, quem sabe até, elucidar desaparecimentos dos supracitados caninos, que, por falta de latim, já não mordem mais como em tempos idos, nunca esquecidos.
Não, melhor não tentar entender. Nós, pobres malucos, somos assim mesmo: Obtusos. Obtusos e Capciosos.
E com mais uma conveniência: Por não vivermos tempo nenhum, há tempos vivemos todos os tempos. E, a tempo, cabe ainda ressaltar: ao mesmo tempo.
Destarte, no frigir dos ovos, em época que até banana já pondera devorar símio, convém sempre analisar-se inúmeras vezes, e depois mais inúmeras vezes (aproximadamente), a possibilidade de acrescentarem-se mais almas por cá ou acolá.
Porquanto as almas, minha senhora, ao contrário dos tijolos ou das meias de lã, são assaz barulhentas, quiçá inconvenientes. Ao menos enquanto recheiam os tais bocados de carbono e água, vulgarmente chamados gente.

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quinta-feira, dezembro 27, 2007

Ele, ela e mais ninguém - CONTO DE AMOR

Veja como são as coisas.
Ele, tão experiente, já havia sido casado três vezes. Isso, sem contar tantas outras mulheres, com as quais conviveu por anos, meses, semanas, dias, ou algumas vezes, por apenas algumas horas...
Umas eram altas, outras baixas, umas santinhas, outras safadas, umas magras, outras nem tanto, algumas inteligentíssimas, e outras compensavam a falta de perspicácia de outras formas. Neste último quesito, acabou preferindo estas àquelas, como admitia abertamente.
Uma vez, chegou até a morar com duas moças ao mesmo tempo. Uma situação que começou bem, numa espécie de triângulo amoroso, que só ficou meio chata quando o triângulo virou trapézio, o trapézio virou hexágono, e assim por diante, até chegar num octaedro de perversão. Quando uma delas chegou em casa com um cabrito de cinta-liga, decidiu que era melhor voltar ao convencional. Abortou a missão e voltou correndo pra casa da mãe.
E o mesmo acabou acontecendo com todas elas... Para ele, eram como diversos legumes borbulhando num caldeirão recheado de diferentes temperos, trejeitos, charmes e manias.
Tornou-se um notório conhecedor do âmago feminino: Afinal de contas, sempre conviveu com elas ininterruptamente, desde que se conhecia por gente.
Quando amigos lhe pediam conselhos, a fim de melhor entender o universo feminino, sempre dava um leve sorriso com ares de professor, e respondia sem titubear.
Os conselhos quase sempre davam bons resultados, quando seguidos à risca.
Funcionavam, porque depois de certa idade, ele percebeu que a grande maioria das mulheres seguia certo padrão de comportamento, quando em condições normais de temperatura e pressão.
Desde criança, conviveu exclusivamente com mulheres. Foi criado apenas pela figura materna, desde que o pai saiu para ir até a padaria para comprar cigarros, há 32 anos atrás. Há quem diga que não volta mais. Mas ele não se importa.
Teve uma infância feliz, uma adolescência relativamente tranqüila, e saiu de casa aos 19 anos, logo depois de se casar com uma mulher de 35, uma bela balzaquiana que o ensinou muito sobre as coisas da vida, mas acabou o trocando por um outro jovem de 16 anos, apenas 8 meses depois do casamento...
Foi duro, mas ele sobreviveu.
E assim foi, uma a uma, trocando de par como quem troca de roupa. Quando se desentendia com alguma delas, corria imediatamente para a casa da mãe. Um pouco pela saudade, um pouco pela falta de cuecas limpas. Mas definitivamente, uma coisa não excluía a outra.
Mas desta vez, tudo parecia ser realmente muito diferente: Tinha a nítida impressão que ainda não estava preparado para aquele momento. Uma sensação estranha para ele, que sempre foi muito bem resolvido nestas questões.
Já tinha experimentado de quase tudo, mas naquela tarde, quando o novo casal chegou ao pequeno apartamento (ele tinha acabado de sair da casa da sua mãe), tudo parecia novo. Novo, e assustador.
Resolveu então, esclarecê-la sobre todas as regras da casa.
Explicou tudo sobre suas manias, sua sistemática de organização, e principalmente, sobre a importância da logística de cervejas na geladeira.
Em resposta, não ouviu nenhuma palavra. Ela era assim... Tranqüila. E era justamente essa tranqüilidade que mais o assustava.
Mas tudo bem. Ele a havia escolhido por livre e espontânea vontade, e agora já não podia reclamar. Estava decidido: Iam viver juntos até que a morte os separasse, e da melhor forma que fosse possível.
O apartamento nunca havia sido tão silencioso. Ela era realmente diferente de todas as outras. Aquele silêncio era bom, mas às vezes incomodava um pouco.
Ele aproveitou para ler bastante, andar pelado pela casa, ouvir Lupicínio Rodrigues bem alto, ou simplesmente passar um tempo largado, pensando na vida. Ela nunca reclamava.
Mas aos poucos, o sossego e o silêncio passaram de um leve incômodo para um grande tormento. Acabou descobrindo que o problema não era com ela, ou então com as anteriores. O problema era ele.
Em poucos meses, começou a comer mal, dormir mal, e chegar atrasado no trabalho. Foi despedido.
Ela, tranqüila como nunca, continuava impassível aos sofrimentos dele. Sabia que não podia fazer nada a respeito, e se alguém podia resolver o problema, esse alguém era ele mesmo.
Já ele, acabou por descobrir como sua vida foi (e ainda era) fútil e sem propósito.
Sem nenhuma outra idéia, decidiu encerrar prematuramente seus dias na Terra.
Enquanto seu corpo balançava pendurado no meio da sala, já sem vida, caía do bolso da sua camisa um pequeno bilhete com a seguinte mensagem:
“Minha querida:
Vim, vi, mas não venci.
Não há vencedores nesse mundo, mas apenas vencidos.
De todas as companheiras que já tive em meu caminho, você foi a melhor.
Fez-me enxergar o sentido da vida, e ver que a vida não faz sentido algum.
Por favor, não se culpe pelo que aconteceu. A decisão foi minha.
No fundo, você sempre soube que isso ia acontecer. Mas nada poderia ter feito.
Sei também que você há de continuar seu caminho, como sempre, mergulhada neste teu silêncio crônico, que tanto me atraiu.
Muita gente nesse mundo ainda precisa de você, minha querida.
Segue teu caminho, pois você já não me pertence mais.
Ainda iremos nos rever na eternidade, e rir muito disso tudo.
Ao menos, assim espero.
É com esta esperança que me despeço de você, minha grande paixão.
Com carinho,
Seu eterno amante.”
Dias depois, quando a polícia arrombou a porta do apartamento a pedido dos vizinhos, que estranharam o cheiro de carne podre, ninguém entendeu mais nada.
Para quem era aquela carta, se ele já morava sozinho há meses, enclausurado em seu pequeno apartamento?
Após alguns dias de investigações, descobriu-se que o destinatário não era exatamente uma pessoa, por assim dizer.
O seu último e mais profundo amor, a quem carinhosamente chamava de querida, de paixão, era apenas uma poeira leve, que os outros, que nada sabem da vida, insistem em chamar de ‘solidão’.

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