terça-feira, setembro 21, 2010

Poema de quase-amor

Sempre que as vejo por aí, minha alma se inquieta.

Quero poder tocá-las, senti-las, profaná-las enfim.

Se me distraio com elas, facilmente me torno poeta,

Fico a rir à toa, num gozo sincero, intenso e sem fim.


Loura devassa, morena salutar, ruiva despudorada,

Todas devem ser apreciadas, como há de se convir.

Só a pressa, velha inimiga do ato, deve ser evitada,

Antes que as bocas se toquem e tudo venha a fluir.


Uma ocasião tão imprescindível, trivial e universal,

Não poderia ter dia, hora ou minuto de encerramento.

E mesmo que, cedo ou tarde, tudo chegue ao final,

Enquanto dure, que seja eterno este nobre momento.


Há por aí quem eleja umas poucas como preferidas,

E até mesmo, iludidos pelo charme fingido, vendido,

Alguns, entre tantas avulsas, têm uma só escolhida:

Sob juras de amor, são para sempre comprometidos.


Já não sei mais se por egoísmo ou se por pura poesia,

Evito, sempre que posso, ter que compará-las entre si.

Pois se todas têm seus encantos, não há hierarquia,

E o sincero desejo é tê-las todas, as de longe ou daqui.


Mesmo quando, por tantos os motivos neste mundo,

Faz-se necessário terminar com a companheira atual,

Comigo não carrego qualquer ressentimento profundo,

Pois mesmo se breve, diverti-me com todas elas, afinal.


E nesse nosso mundo tão moderno, onde tudo é reciclado,

Aquela que vai hoje volta amanhã ou depois, já renovada.

Pra você, pra alguém longe, ou pra esse amigo ao seu lado,

Saborosa e cheirosa, pronta para ser novamente provada.


Há algumas pra poucos, e bem sei que talvez não as tenha,

Mas agradeço às que tive e peço que alguma comigo esteja,

Pois as quero muito, e espero que delas nunca me abstenha.

Eu preciso você sempre comigo, minha boa e velha cerveja!

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segunda-feira, julho 21, 2008

Long Dong Silver

Navegando por este mundo virtual, achei assaz peculiar o assunto deste post: http://guardacontigo.blogspot.com/2008/07/pra-comear-semana.html
Por vezes eu escuto (algumas vezes, até de bocas femininas) a velha conversa de que o calibre da espingarda não importa ao bom atirador, ou que o tamanho da varinha não é proporcional ao poder do feitiço, ou até que muitas vezes é preferível um pequeno brincalhão a um grande bobão...
Acho que o assunto destas (e de tantas outras expressões genéricas sobre o tema) é muito mais do que uma simples besteira. É, na realidade, uma total perda de tempo.
Explico: Caso este fosse realmente um fator tão importante assim, ou tão crítico para a operacionalização da brincadeira em si, provavelmente a abordagem feminina em relação ao assunto seria um pouco diferente.
Neste caso, acredito que o diálogo entre os namoricos de bares ou casas noturnas, acabaria, invariavelmente, tocando neste assunto.
Imagino a coisa mais ou menos assim:

Ele, mais ousado, decide fazer a proposta, com um olhar de galanteio:
- Então, já que agora nos conhecemos bem, e vimos que temos tudo em comum, sei lá, podíamos curtir o resto da noite num lugar mais sossegado... Você pode até achar besteira, mas acho que é coisa do destino esse lance da coleção de selos, e dos pesadelos com gelatina de abacaxi. Nunca achei que encontraria uma pessoa assim, tão linda, e que, ainda por cima, gosta das mesmas coisas que eu. E você, o que acha?
Ela responde um pouco envergonhada:
- Bom... Também fiquei deslumbrada pelo fato de você gostar das mesmas coisas que eu. Quando eu conto sobre a minha coleção de selos, os homens tendem a se distanciar. Mas você não. Até o lance dos pesadelos com gelatina de abacaxi!! Que sarro! Como é que pode!?
Ele insiste:
- Então... O que acha de irmos pra um lugar mais sossegado, e aproveitarmos juntos essa noite linda e estrelada? Está cedo ainda, e esta noite promete, minha querida...
Ela, alisando a ponta dos cabelos com a mão, responde:
- Pois então. Acho que a idéia não é das piores. Mas é que tem uma coisa...
Ele, um pouco confuso, completa:
- Como assim? Que coisa? Desculpe perguntar, mas... Você está naqueles dias?
Ela tenta se explicar:
- Não, não... O problema não é comigo. É com você. Ou melhor... Não sei ainda, mas pode ser com você. Não tenho como saber.
Ele tenta ajudar, fazendo-se de machão:
- Comigo? Como assim? Bom... Se o problema era eu, acho que não temos problema nenhum, gata. Nasci preparado. Bom... Você vai me ligar amanhã, não vai? hehehehe
Ela emenda:
- Não! Não é isso! É que eu não sei como explicar... Putz... Como é complicado dizer isso. Vocês homens são muito sensíveis.
Ele, serenamente, sentencia:
- Pode falar o que quiser. Comigo não tem dessa, não. Sou desencanado. Pode se abrir, docinho!
Ela, aliviada, responde:
- Bom... Menos mal... É que eu queria saber sobre o tamanho, sabe. Pra não perder a viagem, sabe... Afinal de contas, a balada ta boa hoje, né? Mas se você não se importa, que bom. A pergunta é: Quais são as medidas?
Ele, titubeante, já suando frio e engolindo seco, diz:
- Tamanho? Bom... Hummm... Tamanho, é... Ah... Bom... Tenho um metro e oitenta, setenta e sete quilos...
Ela, achando que ele não havia entendido, retruca:
- Dãããããrr....Não o seu tamanho, né!! O tamanho dele, saca? Do seu amiguinho. Como disse, não pretendo sair daqui por qualquer mixaria. Como eu já disse, a noite ta muito boa e o lugar ta bombando...
Ele, já sem saber onde enfiar a cara, tenta consertar tudo:
- Hummmm... Me veio uma coisa agora na cabeça... Você tinha dito filatelia, né? Veja só... Tinha entendido filantropia! Quando você falou sobre os selos é que caiu a ficha. Fiz confusão! Na verdade, odeio selos. Engraçado, não?
Ela responde, meio sem entender muito bem:
- Bom... Mas ainda temos em comum os pesadelos crônicos com gelatina de abacaxi, não é verdade!?
Ele, tentando sair pela tangente:
- Gelatina de abacaxi!? Bom... Tinha certeza que você havia dito pavê de maracujá... Confundi mesmo. Foi mal. É que os dois são amarelinhos, né...
Ela, então, ainda releva:
- Bom, tudo bem... Mas acho que isso não importa tanto no final das contas, não é mesmo?
Ele, já dando uns passos pra trás:
- Como assim, não importa!? Claro que importa! Pensando melhor, acho que não temos nada a ver um com o outro. De repente, podemos ser só amigos... Mas não amigos coloridos, né... Afinal, não temos nada em comum mesmo...
Ela, já conformada, rebate:
- Bom... Já que prefere assim, tudo bem. Sem problemas. Mas você não ficou chateado com a minha pergunta, ficou?
Ele, um pouco transtornado, solta essa:
- Claro que não!! E, aliás, caso alguém perguntar, ele é enorme. Mal cabe na cueca. Tive até que mandar trazer umas cuecas importadas. Vieram lá da Nigéria. Você sabe que por lá o pessoal não é fraco, né... Às vezes ele me atrapalha um pouco, mas eu convivo bem com isso. A gente acaba acostumando, sabe...
Ela tenta de novo:
- Ah... Legal! E que tal se...
Ele, interrompendo-a no meio da frase:
- Putz... Meu amigo ta me chamando ali no bar. Acho que ele bebeu demais e não ta legal. Melhor eu ir lá ver.
Ela, sem muita opção:
- Ah... Tudo bem. Vai lá, então...
Ele, já saindo pela direita:
- Então ta. Prazer em te conhecer, viu! Tchau, e até mais! A gente se cruza!
Depois do terrível diálogo com a moça, ele sai andando cabisbaixo em direção ao bar, mas ainda esboça um sorriso quando encontra seu amigo no balcão, e solta:
- Cara... Mais uma regulando mixaria... Essas mulheres de hoje estão muito recatadas, cara... Cadê aquela promiscuidade saudável de outros tempos!?? Foda, meu!
Eis que o amigo responde:
- Que merda, cara... Tinha certeza que essa você furava facinho... Mas a vida é assim mesmo. Dá nada. Parte pra outra!
E ele:
- Cara, mudando de assunto, lembra aquele e-mail que você comentou agora pouco, sobre a tal bombinha sueca, com motor de dois tempos, compressor turbo e três níveis de sucção, pro esquema de alongamento peniano?
O amigo responde, já com um sorrisão na cara:
- Sei sim! Hilário aquilo, cara... Que tipo de gente compraria um troço daqueles?? Bizarro!!
E ele arremata:
- Bom... É que eu queria sacanear um amigo... Encaminha o e-mail pra mim...?

Talvez eu tenha exagerado um pouco, mas minha mente, ao contrário de algumas outras partes, é assim mesmo: exagerada.
No mais, vou me virando com o que tenho. Não é lá tudo aquilo, mas já me quebrou algum galho... E também, agora já me afeiçoei a ele.
Na verdade, não quero nem mais falar sobre isso. Fico por aqui. Chega.
E se por acaso alguém tiver recebido o e-mail com informações sobre a tal bombinha sueca, por favor, me encaminhe.
É que eu quero sacanear um amigo, sabe...

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quinta-feira, dezembro 27, 2007

Ele, ela e mais ninguém - CONTO DE AMOR

Veja como são as coisas.
Ele, tão experiente, já havia sido casado três vezes. Isso, sem contar tantas outras mulheres, com as quais conviveu por anos, meses, semanas, dias, ou algumas vezes, por apenas algumas horas...
Umas eram altas, outras baixas, umas santinhas, outras safadas, umas magras, outras nem tanto, algumas inteligentíssimas, e outras compensavam a falta de perspicácia de outras formas. Neste último quesito, acabou preferindo estas àquelas, como admitia abertamente.
Uma vez, chegou até a morar com duas moças ao mesmo tempo. Uma situação que começou bem, numa espécie de triângulo amoroso, que só ficou meio chata quando o triângulo virou trapézio, o trapézio virou hexágono, e assim por diante, até chegar num octaedro de perversão. Quando uma delas chegou em casa com um cabrito de cinta-liga, decidiu que era melhor voltar ao convencional. Abortou a missão e voltou correndo pra casa da mãe.
E o mesmo acabou acontecendo com todas elas... Para ele, eram como diversos legumes borbulhando num caldeirão recheado de diferentes temperos, trejeitos, charmes e manias.
Tornou-se um notório conhecedor do âmago feminino: Afinal de contas, sempre conviveu com elas ininterruptamente, desde que se conhecia por gente.
Quando amigos lhe pediam conselhos, a fim de melhor entender o universo feminino, sempre dava um leve sorriso com ares de professor, e respondia sem titubear.
Os conselhos quase sempre davam bons resultados, quando seguidos à risca.
Funcionavam, porque depois de certa idade, ele percebeu que a grande maioria das mulheres seguia certo padrão de comportamento, quando em condições normais de temperatura e pressão.
Desde criança, conviveu exclusivamente com mulheres. Foi criado apenas pela figura materna, desde que o pai saiu para ir até a padaria para comprar cigarros, há 32 anos atrás. Há quem diga que não volta mais. Mas ele não se importa.
Teve uma infância feliz, uma adolescência relativamente tranqüila, e saiu de casa aos 19 anos, logo depois de se casar com uma mulher de 35, uma bela balzaquiana que o ensinou muito sobre as coisas da vida, mas acabou o trocando por um outro jovem de 16 anos, apenas 8 meses depois do casamento...
Foi duro, mas ele sobreviveu.
E assim foi, uma a uma, trocando de par como quem troca de roupa. Quando se desentendia com alguma delas, corria imediatamente para a casa da mãe. Um pouco pela saudade, um pouco pela falta de cuecas limpas. Mas definitivamente, uma coisa não excluía a outra.
Mas desta vez, tudo parecia ser realmente muito diferente: Tinha a nítida impressão que ainda não estava preparado para aquele momento. Uma sensação estranha para ele, que sempre foi muito bem resolvido nestas questões.
Já tinha experimentado de quase tudo, mas naquela tarde, quando o novo casal chegou ao pequeno apartamento (ele tinha acabado de sair da casa da sua mãe), tudo parecia novo. Novo, e assustador.
Resolveu então, esclarecê-la sobre todas as regras da casa.
Explicou tudo sobre suas manias, sua sistemática de organização, e principalmente, sobre a importância da logística de cervejas na geladeira.
Em resposta, não ouviu nenhuma palavra. Ela era assim... Tranqüila. E era justamente essa tranqüilidade que mais o assustava.
Mas tudo bem. Ele a havia escolhido por livre e espontânea vontade, e agora já não podia reclamar. Estava decidido: Iam viver juntos até que a morte os separasse, e da melhor forma que fosse possível.
O apartamento nunca havia sido tão silencioso. Ela era realmente diferente de todas as outras. Aquele silêncio era bom, mas às vezes incomodava um pouco.
Ele aproveitou para ler bastante, andar pelado pela casa, ouvir Lupicínio Rodrigues bem alto, ou simplesmente passar um tempo largado, pensando na vida. Ela nunca reclamava.
Mas aos poucos, o sossego e o silêncio passaram de um leve incômodo para um grande tormento. Acabou descobrindo que o problema não era com ela, ou então com as anteriores. O problema era ele.
Em poucos meses, começou a comer mal, dormir mal, e chegar atrasado no trabalho. Foi despedido.
Ela, tranqüila como nunca, continuava impassível aos sofrimentos dele. Sabia que não podia fazer nada a respeito, e se alguém podia resolver o problema, esse alguém era ele mesmo.
Já ele, acabou por descobrir como sua vida foi (e ainda era) fútil e sem propósito.
Sem nenhuma outra idéia, decidiu encerrar prematuramente seus dias na Terra.
Enquanto seu corpo balançava pendurado no meio da sala, já sem vida, caía do bolso da sua camisa um pequeno bilhete com a seguinte mensagem:
“Minha querida:
Vim, vi, mas não venci.
Não há vencedores nesse mundo, mas apenas vencidos.
De todas as companheiras que já tive em meu caminho, você foi a melhor.
Fez-me enxergar o sentido da vida, e ver que a vida não faz sentido algum.
Por favor, não se culpe pelo que aconteceu. A decisão foi minha.
No fundo, você sempre soube que isso ia acontecer. Mas nada poderia ter feito.
Sei também que você há de continuar seu caminho, como sempre, mergulhada neste teu silêncio crônico, que tanto me atraiu.
Muita gente nesse mundo ainda precisa de você, minha querida.
Segue teu caminho, pois você já não me pertence mais.
Ainda iremos nos rever na eternidade, e rir muito disso tudo.
Ao menos, assim espero.
É com esta esperança que me despeço de você, minha grande paixão.
Com carinho,
Seu eterno amante.”
Dias depois, quando a polícia arrombou a porta do apartamento a pedido dos vizinhos, que estranharam o cheiro de carne podre, ninguém entendeu mais nada.
Para quem era aquela carta, se ele já morava sozinho há meses, enclausurado em seu pequeno apartamento?
Após alguns dias de investigações, descobriu-se que o destinatário não era exatamente uma pessoa, por assim dizer.
O seu último e mais profundo amor, a quem carinhosamente chamava de querida, de paixão, era apenas uma poeira leve, que os outros, que nada sabem da vida, insistem em chamar de ‘solidão’.

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