Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Nos bastidores da história - parte II: Noé

Noé era um cara sagaz.
Neto de Matusalém, sempre foi um cara conversador e boa praça.
Ainda na flor dos seus 500 anos de idade (naquela época as pessoas viviam mais, afinal os agrotóxicos ainda não haviam sido inventados) começou a trabalhar com obras públicas.
E foi numa tarde ensolarada que ele chamou um de seus amigos empreiteiros até sua casa, a fim de tratar de negócios.

- Grande Nonô malvadeza!
- Fala, peixe! Tudo pela boa? Jafé! Vai trazer uma gelada pro papai, que o assunto é importante.
- Tudo em riba, Noé, meu velho! E qual é a da vez?
- Então, camarada, te chamei pra conversar sobre uma obra aí, que eu descolei pra gente... Coisa fina.
- Licitação? Mesmo esquema de sempre? Já tem mais um CNPJ pra fechar três cotações?
- Claro! E já tá tudo redondo, no esquema. Eu mesmo assino o projeto e a gente recebe a primeira parcela no começo do mês que vem. Teus dez purça tão garantidos, como de praxe.
- Aí eu senti firmeza, Noé! Tamo junto. E qual é a obra dessa vez?
- Um barco.
- Como?
- Um barco. Aquela coisa que bóia na água, com coisas em cima, saca?

A surpresa era completamente compreensível, já que as obras de Noé eram, até então, relativamente normais. Com exceção de um portal enorme construído entrada da cidade, de gosto duvidoso, feito de pedra, mas a preço de ouro. No mais, foram apenas alguns calçamentos de qualidade duvidosa, um puxadinho na prefeitura e outras tantas desnecessidades de alta importância para a administração pública.
E assim, a conversa continuou no seu rumo normal:

- Cacete, hein Noé! Agora você se superou. Desculpe perguntar, mas o que diabos vamos fazer com um barco aqui? Um pouquinho longe da água, não?
- Fique frio, que tá tudo no projeto. O cliente já deu o sinal verde. Agora é só esquentar a papelada.
- Tá certo, então, né... E de que tamanho de barco estamos falando?
- Um puta barco. Na real, é um tipo de zoológico flutuante. Precisa espaço pra tudo quanto é bicho.
- Você tá de sacanagem!
- Não tô. É obra faraônica, meu chapa... Vamos precisar engenheiros, veterinários, e tudo quanto é tipo de gente. Tudo cargo comissionado, no esquema de sempre, claro. Depois dessa a gente se aposenta, pode botar fé.
- Só você mesmo, hein... E quantos bichos precisam entrar nessa merda?
- Todos.
- Como?
- Tá surdo, porra? Todos. Um casal de cada tipo.
- Caralho, Noé... Não sei da onde você arruma essas boiadas, hein...
- Esse cliente é foda, peixe. Você vai ver só... O cara é ponta firme. Garantiu que vai alagar tudo...
- Eu conheço a figura?
- Acho que sim. É o tipo do cara que está em todos os lugares, sabe de tudo, vê tudo, saca?
- Saquei. Acho que até sei quem é. Esse sujeito dá nó em pingo d’água. Não tem tempo ruim pro cara.
- Tô sabendo... E é meu chegado. E você sabe, né... Tá comigo, tá com Deus... E aí? Tá dentro da parada, então?
- Certeza, bicho. Tamo junto.
- Tamo junto, então.

E foi assim que a grande obra começou.
Todos queriam participar. Afinal, o preço do metro cúbico da madeira inflacionou subitamente, a importação de animais ganhou incentivos fiscais inéditos e engenheiros navais nunca foram tão bem pagos antes.
A maioria não acreditava que o tal barco fosse ter alguma serventia, mas mesmo assim queria levar algum.
E a obra seguia às mil maravilhas, até que, já no final do projeto, o pessoal começou a ficar preocupado...
Foi então que um dos mestres de obra criou coragem e foi conversar com Noé:

- Noé, to preocupado... E se não chover? Vai ficar feio pra gente... E eu sei que a última parcela a financeira só ficou de liberar se começar a alagar tudo, bicho...
- Vai chover sim, eu dou um jeito. Afinal, tenho meus contatos... É coisa de um telefonema.
- Tudo no esquema?
- Tudo no esquema.
- Então fechou. Vou tranqüilizar a galera. Valeu, Nonô!
- Valeu, peixe! Pode tocar a pau na obra, que eu garanto o acerto do final.

O que mais intrigava Noé era que, mesmo com a passagem já comprada para as Ilhas Caimã, caso tudo desse errado, ele estranhamente acreditava que tudo aquilo ia realmente alagar em breve.
E ali, sentado na soleira da porta do escritório de projetos, ele sentiu o alívio das primeiras gotas de chuva enquanto via o mestre de obras voltando num andar tranqüilo.
Porém, não conseguia parar de pensar:
Como será que essa história seria contada dali a alguns mil anos?

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Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Quer fumar quanto?

Esta segunda-feira, além dos itens de série típicos, como cansaço, céu cinza e mau humor, trouxe também, como acessórios de luxo, uma dor de garganta regada à própolis e um atraso no trabalho por conta do horário de verão.
Uma segunda-feira ideal para, ao final da labuta cotidiana, se tomar uma boa cachaça mineira ou se suicidar. Na dúvida, fui de Boazinha.
Segunda-feira, aliás, que antecedeu um sábado dedicado ao obscuro estudo dos conceitos subjetivos da subjetividade contida em si mesma. Subjetivamente falando, claro.
O evento, de caráter interestadual, tomou parte num dos estabelecimentos mais contundentes da capital paranaense: O Schwarzwald, que por motivos óbvios (principalmente a partir do terceiro ou quarto submarino), é conhecido como ‘Bar do Alemão’. Fica bem ali no meio do contraditório Largo da Ordem, não tem como errar.
Entre os diversos temas completamente aleatórios e extremamente pertinentes, discutiu-se também sobre a nova onda de proibição alucinada, benchmark da inquisição espanhola, que ocorre aos poucos, sorrateiramente, na ala curitibana do grande hospício chamado ‘mundo globalizado’.
Logo após a famigerada ‘Lei Seca’, o despropósito mais recente é a tal lei ‘anti-fumo’.
Áreas de fumantes serão, daqui a alguns meses, sumariamente extintas da capital paranaense.
Restarão como locais (com teto) para a prática desta modalidade apenas as tabacarias, os terreiros de umbanda, e os humildes lares dos fumantes, estes miseráveis.
Até aí tudo bem.
Afinal não estranharia se, pelo princípio da concisão, parte das leis em vigor fosse agrupada em apenas uma sentença, que seria algo como “É proibido se divertir” ou similar.
Ou ainda, de forma mais abrangente, que o princípio da legalidade fosse invertido, criando-se uma lista das práticas legais e presumindo-se a ilegalidade das demais por simples praticidade.
Enfim, a estupidez humana não me assusta mais. O que ainda me assusta é esse clima de ingenuidade coletiva que paira no ar.
São as discussões públicas acaloradas sobre temas sem pertinência real.
Explico com um exemplo:
A antiga lei municipal que dispunha sobre os locais de fumo era efetivamente cumprida?
O texto da lei antiga era ineficaz ou insuficiente claro a fim de proteger os não-fumantes do martírio da fumaça do cigarro?
A nova lei, ainda mais rígida aos fumantes, estes degenerados, será efetivamente cumprida?
Arriscaria dizer que as respostas seriam, respectivamente, não, não e não.
Posto isso, a única explicação plausível é que a idéia seja justamente super dimensionar a proibição do texto legal, já antevendo que o seu cumprimento será pífio.
Algo como obrigar sua filha a usar burca e não se aproximar de qualquer homem até os trinta e cinco anos, na esperança que ela ao menos não vire prostituta aos dezoito.
E foi com base nestes sólidos argumentos que, sob os auspícios de uma noite de sábado, fizemos um protesto nebuloso.
Num momento épico, já um pouco exaltados pelo fluxo das canecas, fumantes e não fumantes uniram-se, cada qual ao seu modo, para fumar como se não houvesse amanhã.
O cigarro escolhido foi um mentolado de embalagem bonita, pelo belo design da embalagem e por seus efeitos expectorantes, notoriamente benéficos à saúde, ou não.
Entre a penumbra esfumaçada do ambiente, era possível distinguir vários estilos de fumar, que iam desde o ‘estilo gerencial’, jeitoso e sóbrio (nem tão sóbrio), até o estilo ‘Preto Velho’, conhecido internacionalmente como ‘Old black guy smoking style’. Este último pouco elegante, porém extremamente eficiente no propósito de espalhar fumaça no ambiente.
E foi assim que, de forma bizarra e por alguns poucos instantes de uma noite de sábado, a fumaça incomodou, espantou os demônios da imbecilidade e trouxe um leve gosto da boa e velha liberdade.
A mesma liberdade que, segundo Lênin e a prefeitura municipal, de tão preciosa que é, deve ser cuidadosamente racionada.

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Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Carta aos ETs, parte VII

Sétima parte da carta aos seres que, sem mais nada mais divertido para fazer, forem assumir essa baderna que os senhores chamam de planeta.

Primeiras partes, vide post anterior.


Nós, seres humanos, temos uma característica assaz peculiar: Somos providos de uma disposição de espírito inexplicável e intensa, vulgarmente conhecida pelo nome de esperança.
A esperança é uma espécie de combustível espiritual, que enseja quase todas as ações humanas não aleatórias.
Obviamente os resultados dessas ações são, na maioria das vezes, infrutíferos. Mas é justamente a esperança que faz com que tentemos de novo.
E de novo. E de novo.
Há de se ressaltar que as lendas etimológicas nos afirmam categoricamente que a palavra esperança nasceu do ardiloso verbo esperar.
Eis então, que o grande problema reside, mais especificamente, na questão da administração da esperança.
Pois mesmo que muito nutritiva quando ingerida com moderação, em doses exageradas a esperança pode resultar num eficiente processo de castração racional.
Afinal, nós animais nascemos com uma terrível limitação, que infelizmente é item de série: Vamos todos morrer.
De gripe ou não, cedo ou tarde, havemos de morrer.
Enfim, o verbo esperar não pode ser conjugado eternamente sem que haja revezamento de quem o conjuga. Pois mesmo que em última instância, em algum momento a esperança invariavelmente bate com as dez.
E por mais incoerente que possa parecer, temos que o simples fato da cova ser o destino final de todos, curiosamente faz com que surja dos confins da razão humana uma obrigação tácita de alguma forma justificar o efêmero intervalo de tempo que passamos zanzando perdidos por este mundão.
E aí jaz, sem dúvidas, um dos grandes problemas existenciais que assolam a humanidade. Qual é o sentido da vida, se é que existe um?
A boa notícia é que atualmente a já contamos com inúmeros remédios para amenizar o mal do desconforto nauseante causado pela incerteza crônica acerca dos assuntos da eternidade.
As prateleiras sempre hão de estar forradas com as mais diversas soluções. Acredito que os mais vendidos sejam a fé, o sexo, a fluoxetina, a cerveja (muito embora um não necessariamente exclua os outros), e, eventualmente, outros medicamentos análogos que também tenham embalagem bonita. Nós humanos adoramos embalagens bonitas.
De qualquer forma, sejam lá quais forem os remédios escolhidos, estes devem sempre ser apreciados com a devida moderação, sob o risco de haver diversão gratuita, que certamente resultaria em morte precoce. Afinal todos sabem que o tempo passa muito mais rápido quando nos divertimos.
Enfim, viver mata. Pra piorar, proporcionalmente à intensidade em que se vive.
Em caso de dúvidas, vide bula.

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Quinta-feira, Julho 23, 2009

Carta aos ETs, parte VI - Dos pontos A, B e G

Carta aberta aos gnomos, duendes, fadas, e quaisquer outros seres que, em meio a festas regadas a poções encantadas e pó de pirlimpimpim, forem comandar o planeta quando a humanidade finalmente chegar ao seu objetivo final: a extinção.

Pra quem perdeu a primeira parte.

Pra quem perdeu a segunda parte.

Pra quem perdeu a terceira parte.

Pra quem perdeu a quarta parte.


Pra quem perdeu a quinta parte.


No exato instante em que o homem teve, pela primeira vez, a percepção de estar no ponto A, seu espírito foi tocado profundamente por um sentimento questionador sem precedentes, que desde então o indaga incessantemente com uma questão ardilosa: Qual seria a melhor forma para se chegar ao ponto B?
A partir daí foram inventadas incontáveis maneiras de se atingir não somente o ponto B, mas toda a sorte de outros pontos, com exceção do ponto G, para o qual o homem moderno mediano ainda mostra certa dificuldade no processo de localização.
Entretanto, os demais pontos do globo já são café pequeno. Trivialidade, enfim.
Atualmente já não há mais aonde não se chegue pelas bandas desse planeta, muito embora as filas de check in estejam crescendo de forma inversamente proporcional ao lanche de bordo, que um dia já foi refeição, mas hoje se encontra no limiar do “lanchinho”. Muito em breve precisaremos de uma nova definição, do tipo “bolacha de maisena compartilhada”, “gomo de tangerina individual embalado a vácuo” ou algo do tipo.
Alguns, mais empolgados com essa coisa de viajar, já até passearam pelos lados lá da lua, ou, de acordo com os mais céticos, em um estúdio que imitava a lua, o que daria na mesma, afinal uma mentira gigante é praticamente uma verdade de porte mediano... Ou não.
De qualquer forma, foi pela eterna ânsia de locupletar suas vontades de ir e vir que a humanidade criou as mais diversas máquinas nas mais variadas cores e formatos. Destacam-se, entre estas, o helicóptero, o foguete espacial, o trem Maglev, o avião supersônico, o triciclo Bandeirantes e a Kombi. Esta última, sem dúvida, a invenção mais simpática e genial do ramo dos transportes.
Dentre todas as possíveis formas de transporte de pessoas, certamente o automóvel é a que desperta mais emoções no ser humano. É uma máquina que há muito já transcendeu às questões logísticas para adentrar ao capcioso mundo das relações sociais.
Afinal, convenhamos: Um cidadão que adquire um carro esportivo de meio milhão de lascas não tem como foco principal o percurso do ponto A ao ponto B, seja lá qual for a velocidade em que o sujeito for fazer isso. Neste caso, há uma infinidade de objetivos diversos, tal qual o aumento das chances de efetivar conjunção carnal, o fato de ter-se um carro mais caro que o do vizinho, uma eventual compensação a desproporções anatômicas que causem constrangimentos, ou simplesmente a atração da atenção alheia para si mesmo.
O advento dos automóveis, aliás, nos trouxe ainda um problema deveras peculiar: O engarrafamento.
O engarrafamento é uma espécie de evento social de caráter anti-social, no qual inúmeras pessoas se reúnem em vias públicas, cada qual isolado em seu próprio veículo (estranhamente projetado para quatro ou cinco pessoas), para juntos emitirem a maior quantidade possível de dióxido de carbono, monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos, óxidos de enxofre e outras substâncias de nomes estranhos que podem matar pessoas, enquanto se irritam mutuamente pelo simples fato de estarem ali parados.
Um ritual peculiar, sem dúvidas. Mas nós humanos somos assim mesmo: precisamos exercitar nosso estresse diariamente.
Caso contrário, correríamos um sério risco de não mais haverem crimes e guerras, e todos invariavelmente morreriam de tédio.

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Domingo, Junho 07, 2009

Um tributo aos impostos

O sócio é voraz.
É o que posso concluir do pouco que aprendi sobre questões tributárias ao longo de aventuras e desventuras corporativas.
Embora não seja do ramo da gastronomia, o tal acionista majoritário universal é definitivamente muito arraigado a receitas.
Ironicamente conhecido como “governo”, seja este federal, estadual, municipal ou de qualquer nova modalidade que porventura tenha sido criada para fins de arrecadação, é um sócio com uma característica peculiar: O descarado divide apenas os lucros, nunca os prejuízos.
Assim, em tempos que até IPI já virou assunto de bar, convém traçar algumas linhas a respeito desta assombração nacional, vulgarmente chamada de “imposto”.
Mas impostos, taxas, contribuições e pragas do tipo são males universais que remontam tempos antigos e jamais foram exclusividades de terras tupiniquins, poder-se-ia argumentar.
Sim, há de se concordar.
Todavia desafio os prezados leitores (e nobilíssimas leitoras, na medida do possível) a descobrirem mundo afora algum sistema tributário mais criativo que este nosso. Suponho que muito provavelmente não haja nada comparável às nossas esquizofrenias tributárias, ao menos por essas bandas da via láctea.
Façamos um teste.
Moderando a nostalgia sob níveis saudáveis, tente regressar à mente os velhos ares de tempos de escola, contenha as lágrimas, e resolva o seguinte probleminha matemático:
Joãozinho, maravilhado com as benesses do mundo virtual, decidiu comprar um telefone celular azul, com câmera de vídeo paranóica, teclado impermeável, conexões estratosféricas, memória proboscídea e processador paradigmático. Procurou no mercado livre, mas só achou o modelo verde por estonteantes mil reais (mas com frete grátis).
Felizmente Joãozinho achou o modelo azul que queria no e-bay, a módicos duzentos dólares debitados direto no cartão.
Como Joãozinho nunca acreditou em almoço grátis e dificilmente seria levado por onda caso tivesse vindo ao mundo camarão, na mesma hora percebeu que naquele mato tinha coelho.
Malandro que só ele, entrou nos sites da Receita Federal, dos Correios, da DHL, da Fedex, da Fudex (esse foi com segundas intenções) e até do Inri Cristo, para, por fim, descobrir que pagaria 200 dólares pelo telefone, mais 60% de imposto de importação, 18% de ICMS, e ainda gastaria 100 dólares com frete internacional.
Considerando os dados acima e uma cotação do dólar a dois reais, calcule o custo final de Joãozinho ao adquirir um telefone azul.
Caso você tenha feito como Joãozinho, e calculado 78% (60%+18%) de 200 dólares como impostos (que resultariam em 156 dólares), somado isso aos 200 dólares do telefone e aos 100 dólares de frete para ao fim converter tudo em reais multiplicando por dois, deve, caso tenha usado calculadora ou pedido ajuda ao seu marido, ter chegado a um resultado final de 912 reais, e, portanto, inocentemente ter concluído que Joãozinho faria bom negócio ao pagar menos de mil reais pelo modelo azul importado, que tanto queria.
Porém foi da pior forma possível que Joãozinho percebeu que havia errado na conta: Recebendo outra conta, como já se deve imaginar, alta demais.
Segundo o boleto, a estimativa de Joãozinho deveria ter resultado em 1210,73 reais, um montante cerca de um terço mais alto do que seus inocentes 912 reais.
Qual é o truque? Perguntaria alguma leitora desavisada.
Criatividade, imaginação e boa dose de cara-de-pau, seria a resposta mais plausível.
Joãozinho deveria saber que na base de cálculo do imposto de importação entra também o valor de frete (60% de 300 dólares já são 180 dólares), e que isso é apenas o começo de um processo ainda mais confuso.
Afinal, o ICMS é um imposto muito mais maroto que o inocente imposto de importação, ou que o popular IPI.
No caso das importações, ao menos aqui na terra das araucárias (o ICMS é um tributo estadual), o ICMS tem uma pseudo-alíquota de 18% cheia de artimanhas, traquinagens e malandrices: Sua base de cálculo engloba o valor do produto, mais o valor de frete, mais o valor do imposto de importação (isso mesmo, imposto sobre imposto, eufemisticamente conhecido por “imposto em cascata”) e pasmem: O valor do próprio ICMS.
Essa bizarrice em particular é conhecida pelo pessoal de ciências contábeis como “imposto por dentro”. Não sei sobre a origem etimológica da expressão, mas desconfio por dentro de onde deva ser (ICMS no dos outros é refresco).
Tanto os “impostos em cascata” quanto os “impostos por dentro” são constantemente criticados e considerados inconstitucionais por inúmeros juristas, tributaristas e palpiteiros de plantão. Mas se chiar resolvesse, sal de fruta não morria afogado. Reclama-se, reclama-se e fica por isso mesmo.
No frigir dos ovos, continuamos pagando impostos sobre impostos, ninguém mata o presidente, e, como não poderia deixar de ser, fica tudo na devida e rotineira desordem natural das coisas.
E convenhamos: Não é necessário ser grande gênio para imaginar a confusão que estes “eufemismos tributários” causam aos empreendedores de primeira viagem e aos investidores estrangeiros. Afinal os mesmos invariavelmente farão estimativas de desembolso completamente furadas, e, por conseguinte, terão prejuízos.
A pior parte da história é que não há como entender o motivo destes artifícios grotescos...
De repente seria apenas um subterfúgio para baixar a posição do Brasil no ranking dos países com “maior carga tributária do mundo”, muito embora acredite que esta conta seja feita através do volume de arrecadação, que não mudaria em nada por mais loucos que sejam os cálculos dos tributos a arrecadar. E, de qualquer forma, o que é um pequeno flato pra quem já está borrado?
Poderia ser, então, pelo medo duma grande revolta popular caso todos descobrissem as verdadeiras alíquotas cobradas nas entrelinhas dos boletos? Pensando bem, a população em geral não sabe nem fazer regra de três, quem dirá fazer análises tributárias críticas sobre a atual conjuntura... O povo trabalha de segunda a sábado e domingo assiste Faustão. Às armas? Não me faça rir.
Assim, sem mais o que imaginar, concluo que o motivo seja simplesmente a famigerada institucionalização pública do estelionato, que já foi crime, mas hoje conta com o título de orgulho nacional.
Não é mais pela vantagem financeira, é pelo simples prazer de se levar vantagem.
Em suma, o de praxe: É só de sacanagem.

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Quarta-feira, Maio 27, 2009

O labirinto das palavras

Mais um texto pro "encaixe a frase" da revista Piauí. A frase é a primeira...
No mais, segue o texto logo abaixo.


Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto.
Sinto que minhas conjecturas já não geram os frutos de outrora.
As letras embaralham-se zombando de mim, e as palavras, essas cretinas, não surgem mais com a fluidez que costumava ser de praxe.
Estaria eu, aos poucos, desaprendendo a raciocinar sobre as coisas mundanas?
Esta possibilidade me amedronta, pois se realmente estiver me tornando cada vez mais burro não há como garantir se amanhã ainda terei a percepção de saber menos que hoje. Afinal, não há como se saber sobre algo que já não mais se sabe, certo?
Talvez até estas próprias divagações estúpidas sejam o reflexo dum processo irreversível que enfraquece diariamente as minhas sinapses. Difícil dizer.
Mas e agora, José? Não posso ter certeza de nada, e, muito menos ainda, do tudo ou de qualquer outra coisa que se situe entre o nada e o tudo.
Só sei que nada sei, já diria o tal cara, qual é mesmo o nome? Rivelino? Não, não! Sócrates! Sim, Sócrates! Grande cara.
Neste exato instante me atento a uma coisa: Se estou mesmo cada vez mais burro, preciso aproveitar meus últimos lampejos de razão da melhor forma possível.
Desvendar a condição humana, quem sabe? Melhor tentar ainda hoje, já que amanhã pode ser tarde demais...
Pronto. Marcado. Três e meia, reunião com fornecedores. Quatro e quarenta e cinco, desvendar a condição humana.
E o que mais? Não sei. Não há mais muito que se fazer... Ou não. Preciso pensar.
Será que não há nenhuma forma de reverter esta situação sufocante?
Deve haver algo que possa ser feito para me livrar desse fardo horrível chamado ignorância.
Já sei: Nunca mais compro estas palavras cruzadas nível dificílimo. Sempre acabam em frustração.

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Sexta-feira, Abril 24, 2009

Resenha sobre o filme "Terra", um lançamento da Disneynature

Ontem à noite fui assistir o filme “Terra”, um lançamento da Disneynature, que é um novo selo da Disney para filmes com bichinhos, plantas e coisas do tipo.
Antes que me perguntem se virei vegan, ecologista ou homossexual (que, aliás, há quem entenda como sinônimos), deixo bem claro que recebi o ingresso dos colegas do Curitiblogs, que ganharam alguns a título de cortesia e democraticamente sortearam entre a rapaziada.
A tempo, que constem nos anais da história meus sinceros agradecimentos ao Curitiblogs. Valeu, moçada. De repente tomamos uma logo mais.
Afinal, em tempos que até urubu já não desce com medo de virar galeto, ingressos grátis ou outras coisas interessantes grátis, como, por exemplo, cerveja (fica a sugestão) são muito bem vindos.
Assim sendo, é de bom grado que eu teça alguns comentários a respeito de tal obra cinematográfica.
O filme, como não poderia deixar de ser, traz imagens absurdamente fantásticas da vida selvagem.
Posto que cinegrafistas não voem e nem tenham poderes de invisibilidade, a certo ponto do filme é natural se desconfiar que os animais tivessem sido treinados e as cenas pudessem ter ocorrido em alguma locação de calibre hollywoodiano, ou então sob o tal “Chroma Key” (aquele fundo azul pra enganar o caboclo).
Caso alguém prove a farsa, sugiro que aquele urso polar mancando seja indicado ao Oscar de melhor ator.
Talvez pareça exagero, mas as cenas são realmente incríveis.
Não se consegue ver uma baleia daquele jeito, a não ser que você seja outra baleia. E mesmo assim faltaria a trilha sonora.
Com exceção de um passarinho escroto que fica dançando como um retardado (o típico bicho que nunca entraria em risco de extinção, por ironia divina), o filme traz uma perspectiva singular da vida selvagem.
Obviamente as cenas mais brutais são sumariamente cortadas logo após o leopardo correr mais que o veadinho, afinal presume-se que o público seja, ao menos em boa parte, infantil.
E foi justamente aí que me ocorreu que talvez o filme, mesmo com uma qualidade inegavelmente fantástica, não vá fazer grande sucesso. Claro que a sala de cinema vazia também me levou a pensar isso...
Acompanhe o raciocínio.
Adultos assistem documentários por dois motivos básicos: Para terem informações inúteis e passarem por inteligentes em discussões de bar; e para exercitarem o sadismo vendo cenas sangrentas. Assim sendo, certamente cenas de vida selvagem com comentários superficiais e com as partes mais chocantes cortadas não vão atrair o público adulto.
Sobre os adolescentes, não há muito que se falar: Talvez se interessassem pela dança do passarinho escroto ao som de NX-Zero, se o mesmo usasse piercing no bico e tivesse problemas na escola. E mesmo assim, não sei não...
Por fim, resta o público infantil, o qual eu presumo ser o verdadeiro público alvo do filme.
Pois bem. Cabe lembrar que o filme, muito embora traga em si certo ar de aventura, é um emaranhado de cenas incríveis, intercaladas, e sem grandes conexões. Certamente está mais para documentário do que para uma história propriamente dita.
Há de se concordar que crianças não ficam mais impressionadas com cenas do mundo real (notoriamente mais chato que o mundo imaginário), mesmo com as filmagens mais incríveis dos ângulos mais bizarros. Afinal já estão acostumadas com produções hollywoodianas fictícias que incluem cenas muito mais impossíveis (justamente por serem fictícias), e muito mais envolventes que a singela “trama” deste filme. Qualquer história da própria Disney daria de dez a zero.
Portanto, diria que, desconsiderando-se as premissas capitalistas que vinculam obras cinematográficas a negócios rentáveis, o filme é muito bom.
Se você gosta de cenas de vida selvagem fabulosas, mas se incomoda com as partes sangrentas ou com comentários informativos substanciais, certamente é o que há.
Para finalizar, meu espírito suíno me obriga a deixar mais um último comentário:
O urso polar morre no final.
Rá!

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