Domingo, Junho 07, 2009

Um tributo aos impostos

O sócio é voraz.
É o que posso concluir do pouco que aprendi sobre questões tributárias ao longo de aventuras e desventuras corporativas.
Embora não seja do ramo da gastronomia, o tal acionista majoritário universal é definitivamente muito arraigado a receitas.
Ironicamente conhecido como “governo”, seja este federal, estadual, municipal ou de qualquer nova modalidade que porventura tenha sido criada para fins de arrecadação, é um sócio com uma característica peculiar: O descarado divide apenas os lucros, nunca os prejuízos.
Assim, em tempos que até IPI já virou assunto de bar, convém traçar algumas linhas a respeito desta assombração nacional, vulgarmente chamada de “imposto”.
Mas impostos, taxas, contribuições e pragas do tipo são males universais que remontam tempos antigos e jamais foram exclusividades de terras tupiniquins, poder-se-ia argumentar.
Sim, há de se concordar.
Todavia desafio os prezados leitores (e nobilíssimas leitoras, na medida do possível) a descobrirem mundo afora algum sistema tributário mais criativo que este nosso. Suponho que muito provavelmente não haja nada comparável às nossas esquizofrenias tributárias, ao menos por essas bandas da via láctea.
Façamos um teste.
Moderando a nostalgia sob níveis saudáveis, tente regressar à mente os velhos ares de tempos de escola, contenha as lágrimas, e resolva o seguinte probleminha matemático:
Joãozinho, maravilhado com as benesses do mundo virtual, decidiu comprar um telefone celular azul, com câmera de vídeo paranóica, teclado impermeável, conexões estratosféricas, memória proboscídea e processador paradigmático. Procurou no mercado livre, mas só achou o modelo verde por estonteantes mil reais (mas com frete grátis).
Felizmente Joãozinho achou o modelo azul que queria no e-bay, a módicos duzentos dólares debitados direto no cartão.
Como Joãozinho nunca acreditou em almoço grátis e dificilmente seria levado por onda caso tivesse vindo ao mundo camarão, na mesma hora percebeu que naquele mato tinha coelho.
Malandro que só ele, entrou nos sites da Receita Federal, dos Correios, da DHL, da Fedex, da Fudex (esse foi com segundas intenções) e até do Inri Cristo, para, por fim, descobrir que pagaria 200 dólares pelo telefone, mais 60% de imposto de importação, 18% de ICMS, e ainda gastaria 100 dólares com frete internacional.
Considerando os dados acima e uma cotação do dólar a dois reais, calcule o custo final de Joãozinho ao adquirir um telefone azul.
Caso você tenha feito como Joãozinho, e calculado 78% (60%+18%) de 200 dólares como impostos (que resultariam em 156 dólares), somado isso aos 200 dólares do telefone e aos 100 dólares de frete para ao fim converter tudo em reais multiplicando por dois, deve, caso tenha usado calculadora ou pedido ajuda ao seu marido, ter chegado a um resultado final de 912 reais, e, portanto, inocentemente ter concluído que Joãozinho faria bom negócio ao pagar menos de mil reais pelo modelo azul importado, que tanto queria.
Porém foi da pior forma possível que Joãozinho percebeu que havia errado na conta: Recebendo outra conta, como já se deve imaginar, alta demais.
Segundo o boleto, a estimativa de Joãozinho deveria ter resultado em 1210,73 reais, um montante cerca de um terço mais alto do que seus inocentes 912 reais.
Qual é o truque? Perguntaria alguma leitora desavisada.
Criatividade, imaginação e boa dose de cara-de-pau, seria a resposta mais plausível.
Joãozinho deveria saber que na base de cálculo do imposto de importação entra também o valor de frete (60% de 300 dólares já são 180 dólares), e que isso é apenas o começo de um processo ainda mais confuso.
Afinal, o ICMS é um imposto muito mais maroto que o inocente imposto de importação, ou que o popular IPI.
No caso das importações, ao menos aqui na terra das araucárias (o ICMS é um tributo estadual), o ICMS tem uma pseudo-alíquota de 18% cheia de artimanhas, traquinagens e malandrices: Sua base de cálculo engloba o valor do produto, mais o valor de frete, mais o valor do imposto de importação (isso mesmo, imposto sobre imposto, eufemisticamente conhecido por “imposto em cascata”) e pasmem: O valor do próprio ICMS.
Essa bizarrice em particular é conhecida pelo pessoal de ciências contábeis como “imposto por dentro”. Não sei sobre a origem etimológica da expressão, mas desconfio por dentro de onde deva ser (ICMS no dos outros é refresco).
Tanto os “impostos em cascata” quanto os “impostos por dentro” são constantemente criticados e considerados inconstitucionais por inúmeros juristas, tributaristas e palpiteiros de plantão. Mas se chiar resolvesse, sal de fruta não morria afogado. Reclama-se, reclama-se e fica por isso mesmo.
No frigir dos ovos, continuamos pagando impostos sobre impostos, ninguém mata o presidente, e, como não poderia deixar de ser, fica tudo na devida e rotineira desordem natural das coisas.
E convenhamos: Não é necessário ser grande gênio para imaginar a confusão que estes “eufemismos tributários” causam aos empreendedores de primeira viagem e aos investidores estrangeiros. Afinal os mesmos invariavelmente farão estimativas de desembolso completamente furadas, e, por conseguinte, terão prejuízos.
A pior parte da história é que não há como entender o motivo destes artifícios grotescos...
De repente seria apenas um subterfúgio para baixar a posição do Brasil no ranking dos países com “maior carga tributária do mundo”, muito embora acredite que esta conta seja feita através do volume de arrecadação, que não mudaria em nada por mais loucos que sejam os cálculos dos tributos a arrecadar. E, de qualquer forma, o que é um pequeno flato pra quem já está borrado?
Poderia ser, então, pelo medo duma grande revolta popular caso todos descobrissem as verdadeiras alíquotas cobradas nas entrelinhas dos boletos? Pensando bem, a população em geral não sabe nem fazer regra de três, quem dirá fazer análises tributárias críticas sobre a atual conjuntura... O povo trabalha de segunda a sábado e domingo assiste Faustão. Às armas? Não me faça rir.
Assim, sem mais o que imaginar, concluo que o motivo seja simplesmente a famigerada institucionalização pública do estelionato, que já foi crime, mas hoje conta com o título de orgulho nacional.
Não é mais pela vantagem financeira, é pelo simples prazer de se levar vantagem.
Em suma, o de praxe: É só de sacanagem.

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Quarta-feira, Maio 27, 2009

O labirinto das palavras

Mais um texto pro "encaixe a frase" da revista Piauí. A frase é a primeira...
No mais, segue o texto logo abaixo.


Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto.
Sinto que minhas conjecturas já não geram os frutos de outrora.
As letras embaralham-se zombando de mim, e as palavras, essas cretinas, não surgem mais com a fluidez que costumava ser de praxe.
Estaria eu, aos poucos, desaprendendo a raciocinar sobre as coisas mundanas?
Esta possibilidade me amedronta, pois se realmente estiver me tornando cada vez mais burro não há como garantir se amanhã ainda terei a percepção de saber menos que hoje. Afinal, não há como se saber sobre algo que já não mais se sabe, certo?
Talvez até estas próprias divagações estúpidas sejam o reflexo dum processo irreversível que enfraquece diariamente as minhas sinapses. Difícil dizer.
Mas e agora, José? Não posso ter certeza de nada, e, muito menos ainda, do tudo ou de qualquer outra coisa que se situe entre o nada e o tudo.
Só sei que nada sei, já diria o tal cara, qual é mesmo o nome? Rivelino? Não, não! Sócrates! Sim, Sócrates! Grande cara.
Neste exato instante me atento a uma coisa: Se estou mesmo cada vez mais burro, preciso aproveitar meus últimos lampejos de razão da melhor forma possível.
Desvendar a condição humana, quem sabe? Melhor tentar ainda hoje, já que amanhã pode ser tarde demais...
Pronto. Marcado. Três e meia, reunião com fornecedores. Quatro e quarenta e cinco, desvendar a condição humana.
E o que mais? Não sei. Não há mais muito que se fazer... Ou não. Preciso pensar.
Será que não há nenhuma forma de reverter esta situação sufocante?
Deve haver algo que possa ser feito para me livrar desse fardo horrível chamado ignorância.
Já sei: Nunca mais compro estas palavras cruzadas nível dificílimo. Sempre acabam em frustração.

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Sexta-feira, Abril 24, 2009

Resenha sobre o filme "Terra", um lançamento da Disneynature

Ontem à noite fui assistir o filme “Terra”, um lançamento da Disneynature, que é um novo selo da Disney para filmes com bichinhos, plantas e coisas do tipo.
Antes que me perguntem se virei vegan, ecologista ou homossexual (que, aliás, há quem entenda como sinônimos), deixo bem claro que recebi o ingresso dos colegas do Curitiblogs, que ganharam alguns a título de cortesia e democraticamente sortearam entre a rapaziada.
A tempo, que constem nos anais da história meus sinceros agradecimentos ao Curitiblogs. Valeu, moçada. De repente tomamos uma logo mais.
Afinal, em tempos que até urubu já não desce com medo de virar galeto, ingressos grátis ou outras coisas interessantes grátis, como, por exemplo, cerveja (fica a sugestão) são muito bem vindos.
Assim sendo, é de bom grado que eu teça alguns comentários a respeito de tal obra cinematográfica.
O filme, como não poderia deixar de ser, traz imagens absurdamente fantásticas da vida selvagem.
Posto que cinegrafistas não voem e nem tenham poderes de invisibilidade, a certo ponto do filme é natural se desconfiar que os animais tivessem sido treinados e as cenas pudessem ter ocorrido em alguma locação de calibre hollywoodiano, ou então sob o tal “Chroma Key” (aquele fundo azul pra enganar o caboclo).
Caso alguém prove a farsa, sugiro que aquele urso polar mancando seja indicado ao Oscar de melhor ator.
Talvez pareça exagero, mas as cenas são realmente incríveis.
Não se consegue ver uma baleia daquele jeito, a não ser que você seja outra baleia. E mesmo assim faltaria a trilha sonora.
Com exceção de um passarinho escroto que fica dançando como um retardado (o típico bicho que nunca entraria em risco de extinção, por ironia divina), o filme traz uma perspectiva singular da vida selvagem.
Obviamente as cenas mais brutais são sumariamente cortadas logo após o leopardo correr mais que o veadinho, afinal presume-se que o público seja, ao menos em boa parte, infantil.
E foi justamente aí que me ocorreu que talvez o filme, mesmo com uma qualidade inegavelmente fantástica, não vá fazer grande sucesso. Claro que a sala de cinema vazia também me levou a pensar isso...
Acompanhe o raciocínio.
Adultos assistem documentários por dois motivos básicos: Para terem informações inúteis e passarem por inteligentes em discussões de bar; e para exercitarem o sadismo vendo cenas sangrentas. Assim sendo, certamente cenas de vida selvagem com comentários superficiais e com as partes mais chocantes cortadas não vão atrair o público adulto.
Sobre os adolescentes, não há muito que se falar: Talvez se interessassem pela dança do passarinho escroto ao som de NX-Zero, se o mesmo usasse piercing no bico e tivesse problemas na escola. E mesmo assim, não sei não...
Por fim, resta o público infantil, o qual eu presumo ser o verdadeiro público alvo do filme.
Pois bem. Cabe lembrar que o filme, muito embora traga em si certo ar de aventura, é um emaranhado de cenas incríveis, intercaladas, e sem grandes conexões. Certamente está mais para documentário do que para uma história propriamente dita.
Há de se concordar que crianças não ficam mais impressionadas com cenas do mundo real (notoriamente mais chato que o mundo imaginário), mesmo com as filmagens mais incríveis dos ângulos mais bizarros. Afinal já estão acostumadas com produções hollywoodianas fictícias que incluem cenas muito mais impossíveis (justamente por serem fictícias), e muito mais envolventes que a singela “trama” deste filme. Qualquer história da própria Disney daria de dez a zero.
Portanto, diria que, desconsiderando-se as premissas capitalistas que vinculam obras cinematográficas a negócios rentáveis, o filme é muito bom.
Se você gosta de cenas de vida selvagem fabulosas, mas se incomoda com as partes sangrentas ou com comentários informativos substanciais, certamente é o que há.
Para finalizar, meu espírito suíno me obriga a deixar mais um último comentário:
O urso polar morre no final.
Rá!

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Quarta-feira, Abril 15, 2009

Da ressaca

Uma boa ressaca convém ser devidamente degustada.
A leve sensação de desligamento das coisas mundanas, a confusão mental e a lentidão de raciocínio, quando não acompanhadas de mal estar físico em níveis intoleráveis, chegam ao limiar do aprazível.
Afinal, a mesma não deixa de ser um estado de entorpecimento, mesmo que escoltada por porções de entusiasmo infinitamente inferiores às usualmente registradas na véspera.
A ressaca perfeita exige um dia de céu cinza, podendo ser eventualmente acompanhada de uma garoa leve. O clima deve, na medida do possível, se adequar às condições físicas e espirituais do protagonista.
Ressacas em dias de céu muito límpido costumam gerar conflitos existenciais insuportáveis, seguidos de balancetes de cunho moral, promessas irrealizáveis, suicídios, entre tantas outras baboseiras do tipo.
Há ainda quem considere a ressaca como o próprio castigo divino, que compensaria o deleite exagerado da véspera, uma suposição que pode ser facilmente desmentida através de duas simples considerações: O mundo definitivamente não é justo; Jesus bebia vinho (mesmo quando só havia água disponível) e mesmo assim precisou ser crucificado.
A verdadeira ressaca deve ter, sob pena de tornar-se contagiosa, índole puramente introspectiva.
Pois muito embora a bebedeira seja uma modalidade esportiva habitualmente praticada de forma coletiva, a ressaca é invariavelmente individual. E não é passível de alienação, absolvição ou procrastinação (a não ser que se emende outro porrete, o que nem sempre é possível, infelizmente).
Enfim, a ressaca tem caráter personalíssimo e de cumprimento sumário.
Bebeu, tomou. Simples assim.
Alguns até classificam-na como doença. Doença incurável, que conste nos autos.
Afinal os sintomas podem ser combatidos com inúmeras panacéias milagrosas, sintéticas ou não, mas a essência ressaca sempre permanece ali, constante, permanentemente alojada na alma sujeito, até segunda ordem do criador.
Particularmente, recomendo, além dos analgésicos, antiácidos e isotônicos de praxe, algum samba bem sincopado de Nelson Cavaquinho, Wilson Batista ou Paulinho da Viola, preferencialmente na voz de João Nogueira (os do Paulinho podem ser por ele mesmo).
Para situações clínicas mais graves, quando nada mais funcionar, recomendo Lupicínio Rodrigues na voz de Jamelão, porém mantendo sempre certa distância de armas de fogo, objetos cortantes, grandes alturas, e afins, que é pra garantir a ressaca da próxima semana.

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Sexta-feira, Abril 03, 2009

As frustrações de Nunes

Nunes era um cara peculiar.
Pela terceira vez na mesma semana flagrou-se parado observando-a com um olhar introspectivo, a poucos metros de distância.
Mal tinha coragem de chegar perto daquele jeito. Não entendia o porquê, mas apresentava um bloqueio psicológico gravíssimo.
Tentava relembrar memórias de infância que pudessem explicar a dificuldade, mas não lhe ocorria nada.
Pra piorar, ela ficava sempre ali, imóvel, limpinha e cheirosa, disponível a qualquer um, porém impassível aos sofrimentos dele.
Nunes tinha plena certeza que mesmo se fosse até lá não iria conseguir interagir, por medo ou insegurança. Ou por ambos. Era sempre assim.
E o sofrimento não era pouco: Sentia ondas de calor que vinham desde a ponta do pé até a nuca... Uma sensação indescritível.
Naquele momento teve vergonha de si mesmo e pensou até em procurar ajuda profissional, afinal o problema era definitivamente com ele. Elas certamente não tinham culpa de nada.
Aquela não era a primeira vez que aquilo acontecia, e a situação já começava a atrapalhar sua vida pessoal.
Enquanto permanecia parado ali, sem ação, começou a lembrar de todas as vezes que passou por situações semelhantes.
De todas as vezes que chegou até elas, mas não saiu nada. Sentia-se psicologicamente impotente. Um eterno frustrado, enfim.
Enquanto a observava ali, branca como a neve, desprotegida, completamente disponível e exalando um agradável cheiro cítrico, teve vontade de chorar.
Porém, subitamente a sensação se tornou mais forte. Nunes, já empalidecido, começou a suar frio.
Precisava sair dali rápido, ou as coisas piorariam de vez.
Não queria passar vergonha, ainda mais na frente dela. Seria ridículo.
Sem dizer qualquer coisa, correu apressadamente até o carro.
Não havia outra coisa a se fazer: Infelizmente, Nunes só conseguia cagar na privada de casa.
Era fiel a ela, e as outras não tinham a menor chance.

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Quarta-feira, Abril 01, 2009

Um breve ensaio sobre o tempo

O tempo é um ente realmente fantástico. Pode, simultaneamente, ser a mais vulgar das vulgaridades e a mais nobre das nobrezas, ou então a mais mesquinha das mesquinharias durante anos para tornar-se a mais esperançosa das esperanças na próxima fração de segundo.
É o maior bode expiatório já registrado nos anais da história humana. Afinal, não fosse a alegada falta do mesmo a humanidade faria, por baixo, três vezes mais do que efetivamente faz. Que jogue a primeira pedra quem nunca reclamou da falta de tempo, mesmo sendo este sempre minuciosamente dividido entre todos de forma igualitária e preestabelecida: vinte e quatro horas por dia para cada um até o final dos tempos, se é que haverá um final. O tempo é, em sua essência política, de extrema esquerda.
Mesmo sem qualquer teste de DNA, desconfio ainda de certo parentesco entre o tempo e o acaso, que, aliás, nunca mais foi visto depois que decidiu aventurar-se como grileiro pelas bandas de Rio Branco, no Acre. Há até quem duvide de sua existência. Tanto do acaso quanto do estado do Acre.
O tempo é algo impossível de ser negociado, muito embora os companheiros de classe proletária não costumem aceitar muito bem este conceito, enquanto aguardam ansiosamente pelas dezoito horas, já imaginando o holerite do dia dez.
Afinal, fora eventuais distorções na geometria do espaço e do tempo causadas por certo alemão doidão, das quais não convém comentar por ora, o tempo, brilhantemente definido por Paulinho da Viola como um pássaro de natureza vaga, além de inegociável, é mensurável, líquido, certo, e personalíssimo.
Quem pensa que o aluga, aluga a si mesmo. Nada contra isso, claro, posto que eu mesmo esteja disponível para locação, dependendo basicamente duma questão de número de zeros. Só não estou aceitando contrato de leasing por ainda me restar certo amor-próprio. Mas aviso assim que acabar.
Uma das qualidades mais fantásticas do tempo é que se não há como ganhá-lo, certamente não há como perdê-lo.
E, haja vista que não há como perdê-lo, temo que seja tanto quanto estúpido preocupar-se com o mesmo.
Assim, sinceramente já não dou grande importância ao tempo, que também já não me presta o mesmo zelo de outrora.
Ainda relacionamo-nos, claro, já que não há outra possibilidade. Todavia fico na minha, e ele, até onde sei, fica na dele.
Suportamo-nos, enfim.
Só não sei até quando.

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Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

A noite fatídica

Mais uma tentativa para a revista Piauí. Desta vez a frase ficou no finalzinho (em negrito).
Agora é ter fé. No mais, segue abaixo o despropósito da vez.

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Certos diálogos são assaz perigosos.
Normalmente iniciam-se com raciocínios aparentemente inocentes, e embora nunca carreguem grandes pretensões, vez ou outra acabam por alterar o status quo do universo de forma inexplicavelmente abrupta, distorcendo a ordem natural das coisas de tal maneira que a ciência moderna ainda não pôde explicar. Einstein, se vivo, chamaria de urucubaca.
Eles eram casados há certo tempo, não tinham filhos, e viviam sob ares de relativa harmonia.
Em tempos modernos, cabe esclarecer: Trata-se aqui de um casal heterossexual, do tipo standard.
Havia perspectiva de domingo, e o astro rei brilhava altivo.
Como procedimento de praxe para sábados ensolarados, ao raiar do dia (que aos sábados acontece em meados das onze horas) ele telefonara para alguns confrades, a fim de convocá-los para o que paradoxalmente chamavam de “churrasquinho com bate-bola”, um eufemismo dos mais ordinários, por óbvio: A dieta líquida era a única modalidade religiosamente respeitada nestes eventos.
Ela normalmente aproveitava a deixa para fazer compras no shopping.
E a vida seguia na mais corriqueira serenidade, até que o acaso, esse maroto, entra em cena:
- Querido, já pensou no que vai fazer com os sessenta minutos que vai ganhar hoje à noite?
- Como? Sessenta minutos? Bebeu, sua doida?
- Hoje acaba o horário de verão, seu grosso!
- Beleza! Uma hora a mais de sono!
- Estava pensando em outra coisa... Tem uma loja nova de calcinhas no shopping e eu vi uma cinta-liga linda...
- Cinta liga, é? Já vi tudo. Negócio fechado. Meus sessenta minutos são seus.
E assim ela se entreteve pelo resto do dia. Fez esfoliação na pele, depilação a laser, passou os mais curiosos cremes nas mais curiosas partes do corpo, tomou banhos relaxantes com óleos aromáticos, fez um tratamento capilar completo e arrematou a obra com um vestido preto cujo tamanho deixaria Hugh Hefner corado.
Ele tomou um banho. Pensou em cortar as unhas do pé, mas ficou com preguiça.
O alvoroço das conversas exaltadas e do tilintar dos copos deu lugar ao sossego. Todos já haviam ido embora, e a paz reinava na casa.
Ele a esperava na cama, enquanto ela caprichava nos últimos retoques na maquiagem. Levou mais meia hora, mas o resultado ficou sensacional.
Sua entrada precisava ser triunfal. Entrou no quarto ao som de uma música envolvente, dançando graciosamente equilibrada nos saltos altíssimos, que realçavam ainda mais as suas belas pernas. O ambiente era sutilmente iluminado por velas e perfumado com incensos.
Eis então que ela percebe um ruído estranho no ambiente. Extravasando inocência, ela ainda chega a pensar que o som do quarto pudesse estar com defeito.
Só percebeu o ocorrido quando viu ele roncando sob o travesseiro babado. Roncava genuinamente. Dormia o sono dos justos, esparramado na cama como uma porca que amamenta seus filhotes, fazendo, inclusive, ruídos característicos.
Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.
E foi exatamente durante seus sessenta minutos extras, devorando um pote de sorvete, que ela decidiu largar suas aulas de aeróbica. Ele não merecia.

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