terça-feira, fevereiro 08, 2011

PRAEPUTIUM - EDIÇÃO II

Em homenagem aos de pouca fé, que duvidaram.
Saindo do forno, indo pra impressora.

Prepúcio - Edição II - BAIXE AQUI (via MEGAUPLOAD, apenas 315kb)

Saudações editoriais!

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domingo, julho 06, 2008

I don't want to stay here...

Sinto um forte nó na garganta quando escuto alguém dizer que é de Salvador, Bahia. Um sentimento que pode ser definido como uma miscelânea de tristeza, inveja e desalento, quase sempre seguido de um suspiro sincero, de quem já sabe que existe um mundo muito melhor lá pra cima das bandas de Campina Grande do Sul...

Nasci e fui criado na fria e cinzenta capital paranaense, onde estabeleço residência até o presente momento, e desconfio que essa minha mágoa tenha nascido aos poucos, durante as duas vezes em que visitei a capital da alegria.

Há quem ache um exagero de minha parte, mas acredito que o ar daquele lugar contenha certa dose de felicidade no seu estado mais puro. Tanto é, que pessoas com pulmões desacostumados a respirar o ar baiano, podem apresentar alguns efeitos colaterais, como ataques de riso inexplicáveis, alegria convulsiva, ou até diarréia, sendo que esta última costuma ser injustamente atribuída ao acarajé e a tantos outros quitutes a base de muito óleo de dendê e pimenta.

Não costumo e nem gosto de falar sobre o assunto, mas em virtude de certas complicações clínico-geográficas no momento do parto, não pude ter uma vida normal, feliz e saudável: Ao invés de nascer em Salvador, acabei vindo ao mundo na gélida capital paranaense.

Portanto, como já iniciei a vida num engano ardiloso, já não tenho a menor sombra de dúvidas de que o universo conspira contra minha pessoa.

E pra piorar o quadro patológico, quando ainda bebê, acabei criando alguns problemas crônicos de saúde, como pele branca, cabelo loiro e olhos azuis. Sintomas típicos de pessoas não adaptadas ao astro rei, logo, condenadas a viver o resto de suas vidas a base de antídotos extremamente inconvenientes, tais como filtro solar fator trinta, guarda-sol, as mais estranhas pomadas e cremes para queimaduras, além do remédio universal contra a desidratação (ao menos, da alma): a cerveja.

Poderia ser pior, claro.

Porém não tenho a menor sombra de dúvida de que houve um erro logístico deste palerma inescrupuloso, chamado Destino: Eu, por óbvio, deveria ter nascido na capital baiana.

Aliás, sou praticamente um baiano, ao menos no tocante à agilidade do espírito, e ao controle de estresse. Só me faltam o verão eterno e um berimbau.

E pra quem não achou história suficientemente triste, além de todas estas mazelas, ainda há mais um infortúnio a ser gentilmente incluído nos anais da biografia deste que vos escreve estas mal traçadas: Fui acabar estudando engenharia elétrica.

Assim sendo, acabei me tornando um cara entediado, sem sol, sem mar, pálido (mais especificamente, cor-de-rosa), e proprietário de um “bimbim” (nada assombroso, mas até quebra um galho), enquanto poderia ser um afro-descendente descolado, exímio tocador de pandeiro e enganador de turistas, que arrepia na capoeira, mora na beira da praia e tem um “membro” de assustar as donzelas mais exigentes.

Em suma: Minha situação é lamentável.

E tudo isso por culpa dum pássaro estúpido que, provavelmente embriagado, errou as coordenadas do destino.

Um erro crasso duma cegonha parva, e que já não pode mais ser corrigido.

Como diabos alguém consegue confundir o elevador Lacerda com a Torre da Telepar, ou então, o farol da Barra com a caixa d’água do alto da XV??

Nada contra o bom e velho Largo da Ordem, que por ostentar um paradoxo no próprio nome tem lá a sua magia, mas que, convenhamos: Não chega ao nível de regozijo ecumênico encontrado no célebre Pelourinho.

O que mais precisa ser comparado? O cândido desfile de carnaval da Avenida Cândido de Abreu, e a folia “ad eternum” da capital baiana?

Ou quem sabe, um marzão azul, quase infinito, e o adubado lago do parque Barigüi?

É... Definitivamente, o inverno me incomoda.

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VOU-ME EMBORA PRA PASSÁRGADA

Por Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Passárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Passárgada

(...)

Em Passárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei -

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Passárgada.

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segunda-feira, junho 16, 2008

Frustração e demais sensações produzidas pela falta de calor

Hoje a capital paranaense amanheceu sob pouquíssimos graus centígrados. E pra piorar, negativos.

Mesmo antes do arrepiante solstício de inverno, já fomos devidamente amaldiçoados por aqui.

Ao raiar do dia, via-se geada por tudo quanto é canto.

Logo que saí pelo portão para, corajosamente, enfrentar mais um dia de labuta, ao vislumbrar um gramado esbranquiçado já na primeira esquina, mesmo sozinho ao volante de meu bólido esportivo coreano vermelho, não tive como conter um resmungo seguido de um conciso, porém substancial comentário, cujo conteúdo segue, na íntegra: “Merda!”

Pra quem não conhece tal infortúnio, o termo “geada” designa um estranho fenômeno observado em Curitiba e arrabaldes, no qual seres malignos de outras dimensões (provavelmente duendes com distúrbios de personalidade ou gnomos viciados em crack) espalham caóticas porções de gelo pelos gramados (outrora verdejantes) da região, pouco antes de embarcarem pra Salvador-BA a fim de fugir deste frio do cacete.

O próprio solstício de inverno é uma ode à depressão: O mesmo é, por definição, o momento em que temos a noite mais longa do ano. Em suma, é o ápice do período de trevas.

Todavia, há quem goste dessa época do ano, justamente em virtude do clima frio. Bizarro, concordo, mas relativamente aceitável, visto que há também quem goste de pedofilia, cropofagia, bestialismo, zoofilia ou funk carioca.

Essa velha história de que o frio é ótimo para apreciar um bom vinho sob o calor da lareira não passa de pura fantasia.

Não consigo ver a lareira, o conhaque, o fondue de queijo (coisa de gente afetada), o quentão de vinho ou o chocolate quente como opções de lazer, mas sim como meios de sobreviver ao frio dilacerante que nos assola nesta época.

Esquizofrenias a parte, diria até que certos níveis de frio, por notoriamente prejudicarem o direito universal de ir e vir, deveriam ser terminantemente proibidos.

Entre as inúmeras desvantagens do clima frio, como por exemplo, a transição da acalorada ducha ao arrepiável ambiente externo, ou a contumaz topada do frígido dedinho do pé no canto da porta do banheiro, ressalta-se a visita à “casa de força”.

Tal atividade, por, de certo modo, diminuir os níveis de dignidade do ser humano, torna-se especialmente apavorante em dias muito frios.

O simples fato de, já de calças arreadas, sentar em algo gelado já faz com que o cidadão procrastine tal atividade pelo maior tempo possível, ainda mais em casos complexos, em que, seja lá por que motivo, o processo exija prazos mais longos a fim de atingir o objetivo final.

Em alguns casos específicos, como já registrado em alguns vilarejos da Sibéria e da Groelândia, medidas extremas, tais como a utilização de fraldas geriátricas ou o corte de alimentos fibrosos da dieta alimentar durante o auge do inverno, por exemplo, se tornam plenamente plausíveis.

Quanto às necessidades fisiológicas de ordem líquida (vulgo mijadas) a coisa também se demonstra complicada, tanto do ponto de vista psicológico quanto operacional, visto que, salvo em casos específicos de indivíduos afro-descendentes, além das óbvias dificuldades de localização e manejo da ferramenta quando recolhida, alguns indivíduos sentem, tal qual o citado instrumento, seus espíritos também diminuídos, ao verem o pouco se tornar ínfimo.

Particularmente, prefiro não me abalar por tão pouco. Aliás, não quero falar sobre este assunto.

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quinta-feira, novembro 08, 2007

Carta aos ETs - parte um

Carta aberta a todos os seres da espécie que vier a habitar este planeta num futuro longínquo ou próximo (o que acontecer antes), ou que estiverem por aqui de passagem.

Parte um.

Espero que vocês não tenham maiores dificuldades para interpretar o código de escrita utilizado no intuito de transmitir esta mensagem (chama-se português). Até porque, se não o interpretaram, não poderiam estar lendo esta frase ou mesmo a anterior, sendo ambas, portanto, de uma imbecilidade assustadora. De qualquer forma, é bom que mantenham em seus espíritos um nível de imbecilidade razoável durante a leitura destas linhas, pois a matéria em análise nesta ocasião trata justamente das preocupações cotidianas da raça humana.
Estamos no ano de dois mil e sete, contados a partir no nascimento dum cara que se chamava Jesus. Não o conheci, mas pelo que me consta, era boa gente. Anos, meses, dias e segundos são unidades de medida para uma coisa chamada tempo. Tempo, é basicamente uma mania que temos de ficar continuadamente contando os períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133.
Para que os senhores possam entender eventuais distorções nas percepções deste que vos escreve, com a devida vênia, gostaria de me apresentar.
Meu nome é Marcos, mas não é raro ver alguém me chamando por alcunhas como Castor, Moicano ou Rosado, e até mesmo de outras formas quando em expressões genéricas, tais como: ‘Aquele cara alí’, ‘Ei, você aí!’ ou ‘O senhor vai pagar como?’.
Sou nativo de um planeta muito peculiar, que os demais de minha espécie (homo sapiens sapiens) chamam de Terra e dividem e sub-dividem das mais bizarras formas, entre estas, ressalta-se a separação em nações, que são definidas (mediante violência ou grave ameaça) por limites territoriais. A nação cujos limites territoriais eu estou habitualmente inserido, chama-se Brasil.
O Brasil é uma nação não auto-administrada cuja atual gestão é responsabilidade, ao menos em teoria, de um senhor chamado Luís. Luís, que já passou muito tempo na chamada reserva de trabalho, está neste emprego apenas provisoriamente: seu ramo de atuação é, na realidade, a metalurgia. Assim, não convém alongar quaisquer explanações sobre Luís. Continuemos.
Dentro desta nação, existem mais divisões, que se chamam estados, que por sua vez, são divididos em municípios, que são divididos em bairros, constituídos de diferentes ruas, devidamente separadas em lotes, com seus respectivos números. Minha espécie tem uma verdadeira compulsão por criar divisões, rótulos e demarcações. Aparentemente, esta é uma característica da nossa natureza.
Vivo num município que ostenta um nome curioso: Curitiba.
Curitiba é uma cidade grande, mas nem tanto. Tem clima ameno, mas nem tanto. Tem algumas coisas interessantes para se fazer, mas nem tantas. Ao menos, é possível encontrar aqui uma bebida muito saborosa, chamada cerveja. Espero que vocês possam conhecer um dia. A cerveja, não Curitiba.
Curitiba é um local predominantemente encoberto por nuvens cinzas, que passam quase despercebidas pela maioria da população, que desperdiça cerca de cinco sétimos do seu tempo dormindo, ou então, entocada nas escolas, empresas, apartamentos, e preferencialmente em shopings (lugares indiferentes à cor do céu), no intuito se encontrarem para então, curiosamente, não se comunicarem umas com as outras. Nos outros dois sétimos do tempo que resta, algumas vezes saem da toca, para não se comunicarem reunidas em parques públicos.
As crianças da minha espécie, que a propósito, é a predadora mais voraz do planeta, são treinadas desde pequenas para terem muito medo, pensarem o mínimo possível, e sempre se arrependerem após qualquer divertimento. Isso tudo, para que se instaure um nível mínimo de ordem no planeta. Ordem esta, aliás, muito interessante para alguns. Para os outros, que não são alguns, não.
Continua...

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terça-feira, outubro 23, 2007

Chove, mas não molha

Falar sobre o tempo não é necessariamente um desperdício deste.
Consagrou-se como um assunto que sugere certo ócio nada criativo, embora haja neste tema, uma certa magia inegavelmente profética. Às vezes inútil, mas ainda assim reveladora:
- Bom dia, companheiro! Tudo na ordem regular dos acontecimentos?
- Bom dia, jovem! Tudo tranqüilo!
- Será que chove hoje, Valentim?
- Hoje chove. Pode ter certeza.
Dito e feito. Melhor que o SIMEPAR.
Ultimamente, já completo o diálogo com um:
- E que horas?
Nunca se sabe quando um guarda-chuva, uma capa, ou um agasalho será necessário por aqui. Curitiba é uma cidade que sofre de transtorno bipolar climático.
Um tipo de esquizofrenia geográfica. Há quem diga que é culpa do Feng Shui. Vai saber...
De qualquer maneira, é altamente estratégico prever o tempo numa cidade que amanhece a 0°C e geada, meio dia brilha o sol e a temperatura sobe pra para 30°C, e de tarde chove só pra dar uma lição naqueles que ousam sair antes das dezoito horas para evitar o trânsito: Devidamente molhados, terão que enfrentar um fim de tarde cinza, um frio repentino e conseqüentemente, um resfriado.
Tudo bem... Há um certo exagero. Na maioria das vezes o céu só fica cinza o dia todo. Há de se defender Curitiba: É uma excelente cidade pra quem gosta de cinza.
Propícia à poesia depressiva e ao suicídio.
De qualquer forma, falar sobre o tempo é algo interessantíssimo.
Pois afinal de contas, nem todos acertam as previsões. A maioria é como eu: Picareta.
O sol brilha, e as nuvens são raras. Mas não interessa:
É só fazer ares de entendedor, e largar aquele chute. Pior que chute, uma canelada de zagueiro dentro da área na direção do gol (improvável, mas não impossível):
- Acho que vai chover.
Pra completar, o cidadão dá uma respirada, vê a inclinação do sol e a direção do vento e arremata:
- Daqui a pouco. E vai ser granizo. Vou sair antes que o trânsito fique impossível.
Se nem chover, os outros vão pensar: “E quem entende esse tempo doido?”. Mas se chover... Ah, se chover granizo... Se chover granizo, o cidadão passa facilmente por druida, de poderes mediúnicos. O novo profeta da cidade.
Logo, tem-se aí, uma chance de estrelato instantâneo sem grandes esforços. Olhe pro céu e faça uma fé, que pode funcionar.
O problema mesmo é quando há dois ou mais profetas. Aí surgem os argumentos, que facilmente perdem o rigor científico:
- Claro que esfria... Esse vento do sul não me engana. Até o pé-de-limão já tá florescendo.
- Besteira, hoje é dia do padroeiro de Pirapora do Bom Jesus. Não chove nem fodendo.
Assim, muitos recorrem a argumentos técnicos:
- Pode até chover. Mas chuva rápida. Trata-se de uma nuvem da raça cumulus nimbus calvus, de densidade mediana.
Como é fato notório que apenas uma pequena e perturbada parte da população conhece as nuvens por seus nomes científicos, dificilmente alguém retrucaria. A não ser, para dar um blefe maior ainda:
- Claro que não, seu imbecil. A cor avermelhada da luz do sol sugere um ambiente rico em sulfato, o que nem em sonho, cria uma cumulus nimbus calvus! Obviamente, trata-se duma cumulus nimbus incus.
Daí pra frente, tudo pode acontecer. Inclusive nada.
Será que chove hoje?

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