PRAEPUTIUM - EDIÇÃO II
Saindo do forno, indo pra impressora.
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Saudações editoriais!
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Divagações inúteis a respeito de especificamente... Nada não.
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Sinto um forte nó na garganta quando escuto alguém dizer que é de Salvador, Bahia. Um sentimento que pode ser definido como uma miscelânea de tristeza, inveja e desalento, quase sempre seguido de um suspiro sincero, de quem já sabe que existe um mundo muito melhor lá pra cima das bandas de Campina Grande do Sul...
Nasci e fui criado na fria e cinzenta capital paranaense, onde estabeleço residência até o presente momento, e desconfio que essa minha mágoa tenha nascido aos poucos, durante as duas vezes em que visitei a capital da alegria.
Há quem ache um exagero de minha parte, mas acredito que o ar daquele lugar contenha certa dose de felicidade no seu estado mais puro. Tanto é, que pessoas com pulmões desacostumados a respirar o ar baiano, podem apresentar alguns efeitos colaterais, como ataques de riso inexplicáveis, alegria convulsiva, ou até diarréia, sendo que esta última costuma ser injustamente atribuída ao acarajé e a tantos outros quitutes a base de muito óleo de dendê e pimenta.
Não costumo e nem gosto de falar sobre o assunto, mas em virtude de certas complicações clínico-geográficas no momento do parto, não pude ter uma vida normal, feliz e saudável: Ao invés de nascer em Salvador, acabei vindo ao mundo na gélida capital paranaense.
Portanto, como já iniciei a vida num engano ardiloso, já não tenho a menor sombra de dúvidas de que o universo conspira contra minha pessoa.
E pra piorar o quadro patológico, quando ainda bebê, acabei criando alguns problemas crônicos de saúde, como pele branca, cabelo loiro e olhos azuis. Sintomas típicos de pessoas não adaptadas ao astro rei, logo, condenadas a viver o resto de suas vidas a base de antídotos extremamente inconvenientes, tais como filtro solar fator trinta, guarda-sol, as mais estranhas pomadas e cremes para queimaduras, além do remédio universal contra a desidratação (ao menos, da alma): a cerveja.
Poderia ser pior, claro.
Porém não tenho a menor sombra de dúvida de que houve um erro logístico deste palerma inescrupuloso, chamado Destino: Eu, por óbvio, deveria ter nascido na capital baiana.
Aliás, sou praticamente um baiano, ao menos no tocante à agilidade do espírito, e ao controle de estresse. Só me faltam o verão eterno e um berimbau.
E pra quem não achou história suficientemente triste, além de todas estas mazelas, ainda há mais um infortúnio a ser gentilmente incluído nos anais da biografia deste que vos escreve estas mal traçadas: Fui acabar estudando engenharia elétrica.
Assim sendo, acabei me tornando um cara entediado, sem sol, sem mar, pálido (mais especificamente, cor-de-rosa), e proprietário de um “bimbim” (nada assombroso, mas até quebra um galho), enquanto poderia ser um afro-descendente descolado, exímio tocador de pandeiro e enganador de turistas, que arrepia na capoeira, mora na beira da praia e tem um “membro” de assustar as donzelas mais exigentes.
Em suma: Minha situação é lamentável.
E tudo isso por culpa dum pássaro estúpido que, provavelmente embriagado, errou as coordenadas do destino.
Um erro crasso duma cegonha parva, e que já não pode mais ser corrigido.
Como diabos alguém consegue confundir o elevador Lacerda com a Torre da Telepar, ou então, o farol da Barra com a caixa d’água do alto da XV??
Nada contra o bom e velho Largo da Ordem, que por ostentar um paradoxo no próprio nome tem lá a sua magia, mas que, convenhamos: Não chega ao nível de regozijo ecumênico encontrado no célebre Pelourinho.
O que mais precisa ser comparado? O cândido desfile de carnaval da Avenida Cândido de Abreu, e a folia “ad eternum” da capital baiana?
Ou quem sabe, um marzão azul, quase infinito, e o adubado lago do parque Barigüi?
É... Definitivamente, o inverno me incomoda.
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VOU-ME EMBORA PRA PASSÁRGADA
Por Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Passárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Passárgada
(...)
Em Passárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Passárgada.
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Hoje a capital paranaense amanheceu sob pouquíssimos graus centígrados. E pra piorar, negativos.
Mesmo antes do arrepiante solstício de inverno, já fomos devidamente amaldiçoados por aqui.
Ao raiar do dia, via-se geada por tudo quanto é canto.
Logo que saí pelo portão para, corajosamente, enfrentar mais um dia de labuta, ao vislumbrar um gramado esbranquiçado já na primeira esquina, mesmo sozinho ao volante de meu bólido esportivo coreano vermelho, não tive como conter um resmungo seguido de um conciso, porém substancial comentário, cujo conteúdo segue, na íntegra: “Merda!”
Pra quem não conhece tal infortúnio, o termo “geada” designa um estranho fenômeno observado em Curitiba e arrabaldes, no qual seres malignos de outras dimensões (provavelmente duendes com distúrbios de personalidade ou gnomos viciados em crack) espalham caóticas porções de gelo pelos gramados (outrora verdejantes) da região, pouco antes de embarcarem pra Salvador-BA a fim de fugir deste frio do cacete.
O próprio solstício de inverno é uma ode à depressão: O mesmo é, por definição, o momento em que temos a noite mais longa do ano. Em suma, é o ápice do período de trevas.
Todavia, há quem goste dessa época do ano, justamente em virtude do clima frio. Bizarro, concordo, mas relativamente aceitável, visto que há também quem goste de pedofilia, cropofagia, bestialismo, zoofilia ou funk carioca.
Essa velha história de que o frio é ótimo para apreciar um bom vinho sob o calor da lareira não passa de pura fantasia.
Não consigo ver a lareira, o conhaque, o fondue de queijo (coisa de gente afetada), o quentão de vinho ou o chocolate quente como opções de lazer, mas sim como meios de sobreviver ao frio dilacerante que nos assola nesta época.
Esquizofrenias a parte, diria até que certos níveis de frio, por notoriamente prejudicarem o direito universal de ir e vir, deveriam ser terminantemente proibidos.
Entre as inúmeras desvantagens do clima frio, como por exemplo, a transição da acalorada ducha ao arrepiável ambiente externo, ou a contumaz topada do frígido dedinho do pé no canto da porta do banheiro, ressalta-se a visita à “casa de força”.
Tal atividade, por, de certo modo, diminuir os níveis de dignidade do ser humano, torna-se especialmente apavorante em dias muito frios.
O simples fato de, já de calças arreadas, sentar em algo gelado já faz com que o cidadão procrastine tal atividade pelo maior tempo possível, ainda mais em casos complexos, em que, seja lá por que motivo, o processo exija prazos mais longos a fim de atingir o objetivo final.
Em alguns casos específicos, como já registrado em alguns vilarejos da Sibéria e da Groelândia, medidas extremas, tais como a utilização de fraldas geriátricas ou o corte de alimentos fibrosos da dieta alimentar durante o auge do inverno, por exemplo, se tornam plenamente plausíveis.
Quanto às necessidades fisiológicas de ordem líquida (vulgo mijadas) a coisa também se demonstra complicada, tanto do ponto de vista psicológico quanto operacional, visto que, salvo em casos específicos de indivíduos afro-descendentes, além das óbvias dificuldades de localização e manejo da ferramenta quando recolhida, alguns indivíduos sentem, tal qual o citado instrumento, seus espíritos também diminuídos, ao verem o pouco se tornar ínfimo.
Particularmente, prefiro não me abalar por tão pouco. Aliás, não quero falar sobre este assunto.
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