quarta-feira, abril 15, 2009

Da ressaca

Uma boa ressaca convém ser devidamente degustada.
A leve sensação de desligamento das coisas mundanas, a confusão mental e a lentidão de raciocínio, quando não acompanhadas de mal estar físico em níveis intoleráveis, chegam ao limiar do aprazível.
Afinal, a mesma não deixa de ser um estado de entorpecimento, mesmo que escoltada por porções de entusiasmo infinitamente inferiores às usualmente registradas na véspera.
A ressaca perfeita exige um dia de céu cinza, podendo ser eventualmente acompanhada de uma garoa leve. O clima deve, na medida do possível, se adequar às condições físicas e espirituais do protagonista.
Ressacas em dias de céu muito límpido costumam gerar conflitos existenciais insuportáveis, seguidos de balancetes de cunho moral, promessas irrealizáveis, suicídios, entre tantas outras baboseiras do tipo.
Há ainda quem considere a ressaca como o próprio castigo divino, que compensaria o deleite exagerado da véspera, uma suposição que pode ser facilmente desmentida através de duas simples considerações: O mundo definitivamente não é justo; Jesus bebia vinho (mesmo quando só havia água disponível) e mesmo assim precisou ser crucificado.
A verdadeira ressaca deve ter, sob pena de tornar-se contagiosa, índole puramente introspectiva.
Pois muito embora a bebedeira seja uma modalidade esportiva habitualmente praticada de forma coletiva, a ressaca é invariavelmente individual. E não é passível de alienação, absolvição ou procrastinação (a não ser que se emende outro porrete, o que nem sempre é possível, infelizmente).
Enfim, a ressaca tem caráter personalíssimo e de cumprimento sumário.
Bebeu, tomou. Simples assim.
Alguns até classificam-na como doença. Doença incurável, que conste nos autos.
Afinal os sintomas podem ser combatidos com inúmeras panacéias milagrosas, sintéticas ou não, mas a essência ressaca sempre permanece ali, constante, permanentemente alojada na alma sujeito, até segunda ordem do criador.
Particularmente, recomendo, além dos analgésicos, antiácidos e isotônicos de praxe, algum samba bem sincopado de Nelson Cavaquinho, Wilson Batista ou Paulinho da Viola, preferencialmente na voz de João Nogueira (os do Paulinho podem ser por ele mesmo).
Para situações clínicas mais graves, quando nada mais funcionar, recomendo Lupicínio Rodrigues na voz de Jamelão, porém mantendo sempre certa distância de armas de fogo, objetos cortantes, grandes alturas, e afins, que é pra garantir a ressaca da próxima semana.

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sexta-feira, janeiro 23, 2009

Considerações sobre a Festa Pomerana e seus principais sintomas

O grande problema em beber como se não houvesse amanhã é que, ao menos na grande maioria dos casos, há amanhã.
E o porvir costuma ser cruel.
O Criador, sádico pela própria natureza, nunca deixa barato: A contraprestação de ordem mediúnico-punitiva costuma vir em forma de náuseas, dores de cabeça, aversão à luz e todos aqueles velhos sintomas que já muito bem conhecemos.
Portanto, aproveitar bem o estado ébrio é condição sine qua non de um bom porrete.
Conseguiu se embriagar? Transcendeu àquela parca ilusão chamada sobriedade? Então aproveite, companheiro! Faça o que tu queres, pois, caso não houver testemunha, é tudo da lei!
Afinal, posto que o castigo divino seja realmente inevitável (desconsiderando o suicídio como solução para a ressaca), é preciso regozijar-se o máximo possível durante a véspera.
É hora de correr pelado, ligar para toda a agenda do seu telefone, encarnar São Jorge (e enfrentar o dragão), rir sem motivo, chorar sem motivo, brigar sem motivo, xingar sem motivo, gritar sem motivo e fazer todas aquelas coisas que você sempre quis fazer mas nunca encontrou motivo.
O álcool etílico age como uma espécie de lubrificante social de densidade ímpar, cujos benefícios vão desde o embelezamento da pessoa alheia até o auto-enriquecimento sem que para isso haja necessidade de qualquer aumento do capital financeiro do cidadão. Um enriquecimento tácito, digamos, criado pela própria jovialidade de um espírito recém renovado.
A famigerada “saideira” é um assunto à parte: Apenas em raríssimos casos é efetivamente a última da noite. Normalmente chega amiúde, num ciclo que facilmente tenderia ao infinito caso não existissem limitadores financeiros, cronológicos, morféticos e hepáticos, que não surgem necessariamente nesta ordem, mas cedo ou tarde acabam dando cabo à brincadeira.
E vali-me exatamente deste raciocínio no último domingo, a fim de não me abalar com o estado de colapso no qual esta velha carcaça se encontrava.
Minha capacidade cognitiva se desprendeu deste meu amendoinzinho, que chamo carinhosamente de cérebro, para vagar por outras bandas. Dadas as circunstâncias dos eventos do último fim de semana, acredito que ela (a capacidade cognitiva) tenha ido lá pros lados da Bavária e adjacências, a fim de degustar um bom chopp de trigo.
Voltou aos poucos. Domingo à noite eu já era capaz de repetir meu nome (o primeiro, pelo menos) e fazer contas simples de adição e subtração (com o auxílio de uma calculadora, claro). Na segunda-feira, tudo quase normal, fora aquela leve sensação de fora-do-ar, que beira o agradável. Sobrevivi, enfim.
O evento em questão é anual, realizado no município de Pomerode, e chama-se FESTA POMERANA.
Sem qualquer tipo de hipocrisia, afirmo sem titubear: festa é surpreendente.
Uma espécie de Oktoberfest (versão tupiniquim, de Blumenau), porém bem menor, melhor organizada, menos caótica, com um povo mais bonito, e, como nem tudo são flores, mais familiar (a parte boa é que ano que vem o jovem Otto vai junto).
Pomerode, cidade simpaticíssima, é conhecida como “a cidade mais alemã do Brasil”. Em época de festa ou não, vale conhecer.
Lá reside um povo hospitaleiro, tranqüilo, divertido e o melhor: que adora chopp.
Por aquelas bandas não é nada raro escutar os habitantes nativos conversando em alemão (ou naquela mistura fantástica, do tipo: Es chuvt! Macht die Janelen zu!)
Aliás, não me surpreenderia se descobrisse que eles (os pomerodenses) usam aqueles trajes típicos durante o ano todo. Eles ficam bem de suspensórios.
Cabe ressaltar que além do chopp fenomenal, da música típica, da dança típica e dos deliciosos e leves pratos típicos, para quem também gosta de loiras bêbadas (típicas), simpáticas e de trajes típicos, a festa também é uma boa pedida. Eu parei com estas coisas: Sou bom indivíduo, cumpridor fiel e assíduo dos deveres do meu lar, bom funcionário, cumpridor dos meus horários, enfim: Um amor quase exemplar.
Tratando-se de chopp, na festa há “apenas” seis opções disponíveis, mas escolhidas a dedo.
Apenas, claro, posto que se fôssemos comparar com a versão Blumenauense de Outubro, não haveria como vencer o famigerado “pavilhão das cervejarias regionais” (bossa recente, frise-se), que não sei bem quantas opções disponibiliza, mas fica perto da casa dos vinte.
De qualquer forma, havia quatro modalidades de chopp Schornstein (cuja fábrica fica na própria cidade e é aberta a visitas), e duas da Antactica.
As opções Schornstein eram:
Natural: o “standard” da marca, quiçá o melhor.
Cristal: parecido com o natural, porém filtrado, portanto mais leve e translúcido.
Ale: avermelhado e forte, como bom Ale que é.
Escuro: um chopp com maior teor de álcool, mas ao mesmo tempo suave e adocicado. Se já é bom em clima quente, deve ser excepcional em clima frio.
A Antarctica participou da peleja com suas opções tradicionais: chopp claro e escuro, que dispensam maiores comentários. Como fazia muito tempo que não via chopp da Antarctica, adorei rever estes velhos conhecidos, de tempos idos, mas nunca esquecidos.
Reza a lenda que os pomerodenses, essas notórias máquinas de beber chopp, consomem mais o produto da Antarctica do que o regional (Schornstein), que já é excelente. Uma briga entre titãs (em termos de qualidade, que é o que importa) do mundo da cerveja, portanto.
Na dúvida, peça qualquer um, que não há como se arrepender.
Falando-se em arrependimento, no que tange à festa, só me arrependo por não ter comparecido nas vinte e cinco edições anteriores. Uma lástima.
Como bom desportista da área, e, aliás, como de praxe, pratiquei a boa e velha prova de “revezamento de chopp”. Os resultados foram excepcionais e não houve qualquer tipo de incompatibilidade entre as opções mencionadas.
Nosso time foi composto por uma delegação de peso, que mesmo desfalcada (faltou um lendário motoqueiro malvado e sua respectiva), fez bonito.
Tati, a simpática, bateu recordes de simpatia e conseguiu fazer amigas de infância com mais facilidade do que andar pra frente (andar pra frente já não era tão fácil àquelas horas).
Sir Gora, o lépido, não perdeu o foco da festa (yeah, o chopp!) em nenhum momento, muito embora tenha quase perdido o rumo em alguns. Mas nada que outro chopp não tenha resolvido.
Don Diego de la Vega, que conheci por ocasião da festa (gente finíssima, aliás), representou bem a ala solteira, mas, infelizmente, não marcou o seu clássico “Z” em nenhuma moçoila, ao menos em termos de conjunção carnal (beijo na boca é coisa do passado).
Claudinha, minha queridíssima respectiva, agüentou bravamente o tranco e, mais uma vez, garantiu seu lugar ao céu agüentando as idéias geniais deste que vos escreve as mal traçadas, claro, após uns goles a mais.
Quanto a mim, quem me conhece sabe que não sou de beber muito: no máximo uma tacinha de vinho com a família no natal, ou em ocasiões especiais (dia da árvore, dia do índio, aniversário de emancipação de Pirapora do Bom Jesus, e por aí vai...). Mas mesmo assim, abstêmio convicto, quiçá impulsionado pelo calor da festa, confesso que acabei por tomar um ou outro chopp. Se não me engano, seis. Ou sete. Ou não.
Pra quem quiser se aventurar, a festa vai até este fim de semana (26/1). Bem conversadinho, ainda dá tempo.
No mais, fica meu sincero agradecimento e um abraço a todo pessoal de Pomerode, em especial ao exímio tomador de chopp e mais novo amigo, ilustríssimo Sr. Alexandre, lá da Pousada Max. Uma boa dica de hospedagem, aliás. Fica perto da festa e o café da manhã é excelente.
Voltaremos próximo ano, claro, se o Criador fizer vista grossa e se o fígado permitir...
Ein Prosit!

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domingo, setembro 28, 2008

Movimento Anti-Atrofia Hepática*

É sempre a mesma história todo final de semana: João Paulo ouve o mesmo sermão da mãe, vê o olhar de reprovação da mesma tia-avó, escuta a vizinha mandando a família se apegar a Deus e lá está mais uma corrente de oração em mais um sábado de confraternização etílica junto com o pessoal do escritório.
Sempre antes das 20 horas, Dona Mariluce se joga aos pés do filho e implora para que ele pense no fígado, outrora tão vermelhinho e sorridente como um daqueles cartões smile.
Quase todo domingo, Luís Gustavo, depois de ter tomando um porre, acorda de cueca, esparramado no sofá, com o mesmo olhar de “ressaca introspectiva,” enquanto ouve o mesmo sermão de Dona Marlene.
Mas, ora essa, nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito.
Quando Aristóteles (Ari, para os íntimos) proferiu esta grande máxima da filosofia, nunca imaginaria que tal citação, sem maiores pretensões artísticas, se tornaria uma verdade etílica universal. Afinal, o fígado, tal qual qualquer órgão do corpo humano, carece exercícios cotidianos a fim de apresentar um bom desempenho.
Assim como aquele tio de meia idade que, no auge do mais familiar dos churrascos de domingo, se escala pra pelada da gurizada a fim de “fazer bonito” relembrando a saudosa época em que jogou de volante nos áureos tempos do combate Barreirinha (quando era conhecido pela alcunha de “Zezão quebra-osso”), e que, irremediavelmente acaba, após alguns (poucos) minutos de profunda humilhação, por ser hospitalizado às pressas com uma torção no joelho esquerdo, uma hérnia de disco, e um princípio de parada cardíaca, as atividades de devassidão (leia-se aqui bebedeira) devem ser devidamente exercitadas. Como manter um fígado funcionando devidamente se você não o faz trabalhar?
A bebedeira de final de semana não é só mais um ato mundano, não é apenas uma forma da secretária quase aposentada e reprimida fazer um striptease em meio ao pessoal do escritório. A bebedeira é medicinal! Terapêutica!
Porém, evidentemente, a não ser que estejamos na Sibéria (neste caso, recomenda-se vodka sem gelo, a não ser que esta já tenha virado gelo, que, não se havendo alternativa, pode ser facilmente comido), obviamente as condições normais de pressão e temperatura hão de ser respeitadas.
Muito embora a palavra “limite” enseje um significado tanto quanto subjetivo quando não empregada para fins matemáticos, principiantes devem se portar como tais, e, a fim de não terem seus currículos vergonhosamente maculados, até mesmo antigos medalhistas devem conservar certa parcimônia em questões etílicas, ao menos quando já desabituados ao mundo de Marlboro.
Tudo isso para que, ao final da empreitada alcoólica, dois martinis não acabem fazendo você se sentar no chão do banheiro e chorar copiosamente enquanto interpreta os maiores sucessos do Roupa Nova, um pouco antes de acordar com a maior ressaca do mundo, em local incerto e não sabido.
Enfim, isso e mais todas aquelas coisas que fazem parte do incerto conjunto de coisas que não deviam acontecer, mas que, acredite: acontecem nas melhores famílias. Nas piores famílias, então, nem se fala...

*Texto escrito em parceria com uma jovem que responde pelo nome de Maíra, é tão albina quanto notável, escreve num blog cujo endereço é http://vidaemposts.wordpress.com/, bebe Bacardi Apple sem gelo (entre outros), e presta consultoria no ramo de aleatoriedades a este que vos escreve.

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terça-feira, julho 01, 2008

Junte-se aos bons, e será um deles

Tudo o que aqueles dois queriam era uma noite de algazarra sincera, como aquelas que costumavam acontecer nos tempos idos, nunca esquecidos.

Relembrar um passado recente, antes de largarem a vida desregrada - ao menos em parte...- e morarem sob o mesmo teto, juntos com aquele anãozinho simpático - acho que é um gnomo - que responde pelo nome de Otto. Meio mala às vezes, mas no geral, gente finíssima.

Afinal de contas, há poucos meses atrás, acordar de ressaca no sábado ou no domingo era coisa de praxe. Cotidiano. Procedimento de rotina.

As ressacas eram inconvenientes, por óbvio, como todas as ressacas devem ser. Mas ainda assim, suportáveis.

Algumas bem leves, das que proporcionam uma zonzeira sutil, e aquela leve sensação de fora-do-ar, que beira o agradável.

Já em casos mais extremos, a coisa era de arrepiar os cabelos das regiões mais longínquas do corpo do sujeito, e a simples menção da palavra "álcool" - substituir a palavra "álcool" pela(s) bebida(s) da véspera - trazia desejos de morte ou de dor, no maior estilo Lupicínio, a quem parafraseio nesta ocasião, a fim de melhor ilustrar estes sentimentos:

(...) Deixa-me sofrer que eu mereço,
Por um pouco que padeço,
Não paga um terço do que fiz,
É tão grande, tão horrível, meu pecado,
Que eu sendo assim castigado,
É que me sinto feliz. (...)

Claro, sempre há pessoas com os nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração, que não conseguem entender a profundidade espiritual da ressaca. Mas, sinceramente, não sei se passando o que eu passo, não lhes venha qualquer reação: Afinal, o método empírico é sempre muito mais didático.

Enfim, o dia seguinte nunca é realmente agradável, mas também não é nada que um coquetel Molotov contendo aspirina, paracetamol, engov, hipocler, eno, pó de café e porções homeopáticas de vodka não resolvam.

E foi assim que eles, num estado de iluminação espiritual – em alguns bairros, chamado de "estado de embriaguez" -, decidiram que se fazia necessária uma festinha. Com urgência.

Uma noitada sem maiores pretensões, com local certo, mas sem quaisquer cronogramas.

Uma noite pra escutar um bom som, beber uma boa bebida, e, com a devida calma e serenidade que a atividade merece, falar muita merda. Travar aquelas conversas que começam numa discussão sobre a cor do rótulo da cerveja, e que, passando por assuntos tais quais a metafísica, a crise no oriente médio, o carro movido à água, ou a melhor marca de chimarrão, nos fazem concluir que a migração das andorinhas não é mais como era antigamente, como nos bons e velhos tempos, quando os videogames tinham um botão só. Ou você pulava, ou atirava. Ninguém pula atirando! Não é de Deus!

Para tanto precisavam, basicamente, de duas coisas: Uma data, e um local.

Abster-se-iam de motivos. Afinal, é de conhecimento notório que as melhores festas não têm motivo algum. Faz-se indispensável apenas o "animus festandi", que junto com algumas doses de vodka ao sair de casa, criam no cidadão os níveis necessários de entusiasmo.

Um bom dia, um bom bar.

Embora suas companhias recíprocas já fossem suficientes para locupletarem seus objetivos no evento, e até que se prove o contrário, na vida, chamariam ainda, quem cruzasse seus caminhos em tempo hábil.

Estariam automaticamente convidados todos que se habilitassem para tanto. As metas estavam traçadas: Beber cerveja, falar merda e rir à beça.

O dia, que fosse sexta-feira, posto que costumava dar sorte. O anãozinho que arrumasse pouso na casa das vovós, que estão aí pra isso mesmo.

E assim foi decidido

Agora, que se faça cumprir.

O lugar chama Empório São Francisco. Um dos melhores bares da capital paranaense, pelo menos na humilde opinião deste que ora escreve, embora o mesmo tenha lá suas razões nostálgicas para tanto. Mais informações: http://www.emporiosaofrancisco.com.br/

A sexta-feira será esta, agora, do dia 4 de julho de 2008.

A solenidade terá início quando o bar começar a ficar bacana, e a saideira só vem quando for vontade do criador. Salvo proposta irrecusável.

Junte-se aos bons, e será um deles.


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Devagar me ensinaram a não correr perigo
Por Marcelino Galeano

Devagar me ensinaram a não correr perigo
A esquecer das dores
A trabalhar desde cedo
A dignar-se pelo labor sem pensar
Só o labor de suar
Fizeram-me acreditar
Que abateria o medo.
Sonhar era coisa de vadio
E aflito era coisa de ingrato
Provar que não era frio
Era locupletar-se com a família num domingo debruçado no prato
Quiseram assim, mas não conseguiram,
Deixaram escapar suas vísceras
Ao remédio destemido não mediram
As mínimas.
Choraram no seu túmulo
Mas continuaram sorrindo amarelo
E profundo.
Da vida à graça
A morte, à desgraça.
não poderia ser diferente?
Alguém não poderia fazer o contrário
Parar de botar banca de crente, otário
E gritar aos pombos da praça
Que paz, não se mede com farsa
Paz se sustenta no temerário
Paz é alegria de ser livre
De não acorrentar-se nas provações
Do príncipe.
De esquecer a medida improfícua
Daquilo que não existe
Paz, é ver belo
o olho que chora triste.

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segunda-feira, fevereiro 25, 2008

The Meaning of Life*

Era uma noite quente e abafada, daquelas extremamente propícias para se degustar de uma boa cerveja gelada.
Tão propícia, que o despretensioso happy hour já adentrava a madrugada, e a conversa tomava rumos tanto quanto desconexos, certamente não recomendados pela Cruz Vermelha, Direitos Humanos ou Anistia Internacional.
Os demais, alguns dominados pelo cansaço, outros por certa submissão conjugal, já haviam retornado ao conforto e à tranqüilidade dos seus respectivos lares.
Mas não aqueles dois. Eram os últimos dos moicanos, e prosseguiam afoitos em suas prosas, discutindo acaloradamente sobre o aleatório, e entre um gole e outro, teorizando planos mirabolantes que certamente solucionariam grande parte dos problemas do mundo. Coisas de bar.
A pauta, que já passara por assuntos delicados, desde religião, auto-suficiência energética, auto-suficiência sexual, marcas de pasta de dente, até possíveis moldes deônticos do bar perfeito, começou a adentrar no obscuro terreno da metafísica, quando um dos jovens incautos começa:

- E o cara?
- O cara? Que cara? O garçom? Tem cerveja aí ainda, meu.
- Não, cara. Não to falando do garçom! Falei "o cara", bicho.
- Sei lá de que cara você tá falando, cara...
- Como assim, que cara? To falando "do cara", meu!
- Então... Esses dias picharam no muro do meu vizinho "Eu comi o cara!". É esse, o cara?
- Não, cacete... Nada a ver! To falando do criador! De Deus, seu animal!
- Ah, tá! Saquei. O cara. Mas o que tem o cara?
- Pois então. Tava pensando. Sei não, se esse cara existe mesmo.
- Como assim?
- Ah... Sei lá, meu chapa! Vai que é tudo invenção da rede globo, e o cara nem existe mesmo... Teoria da conspiração, sabe como?
- Ah, meu! Nem comece! Você já tá doidão!
- Doidão? Quem sabe... Mas convenhamos: Não existe nenhum bom argumento a favor "do cara". E nem venha com essa história de "fé"!
- Cara, fé demais não cheira bem!
- Tá engraçadão hoje, hein!? Tomou uma dose a mais de malandrol antes de sair de casa, galã? Comeu palhacitos, é? To falando sério, porra!
- Tá brabinha, nega? Mas então... Claro que existem argumentos. Bom... Devem existir argumentos!
- Por exemplo...?
- Ah, meu... Sei lá! A nanotecnologia, por exemplo! Um bagulho doido! Só Deus pra explicar uma parada assim!
- Tudo bem. Concordo que é um lance de outro mundo, coisa e tal. Mas no fundo, bem no fundo, não passa dum tacape, só que bem pequenininho, saca? Não prova, necessariamente, que "o cara" realmente exista.
- Vendo por este lado, até que você tá certo, meu... Um tacape pequenininho. Boa essa, hein...

Neste exato momento, passa ao lado deles uma moçoila esbelta, bem feita de corpo, de gingado sincopado e ancas largas, na direção do banheiro. Uma boa parideira, por assim dizer.
Por óbvio, dadas as circunstâncias, os dois protagonistas dão um breve intervalo em suas discussões intelectuais, a fim de aproveitarem a beleza da paisagem, quando um deles ainda comenta:

- Olha só... Que pitéu! Se essa mulher peidar num saco de confetes, é carnaval o ano inteiro, camarada!

Três minutos depois, quando eles conseguem parar de rir e recuperar o fôlego, o outro colega comenta:

- Boa! Essa foi muito boa! Da onde tirou essa, meu chapa?
- Ah... Escutei num bar, dia desses, e estava esperando uma boa oportunidade de usar.

O outro, ao dar mais uma checada no produto, que nessa hora voltava do banheiro, concordou, seguindo a presa com os olhos furtivos, num olhar de galanteio:

- Realmente, uma boa oportunidade. Boa. Muito boa mesmo!
- Então, cara! Ta aí a resposta! A mulher! Quer prova melhor do que esta? Só "o cara" pode ter criado um bagulho assim, tão perfeito.
- Hummmm... Realmente, é um bom argumento. Mas não sei não... Não é um troço exclusivo, saca? Todos os bichos têm suas fêmeas, e tal. E além disso, também temos que contar as barangas! Você que o diga, né...
- Ta bom! Agora falou o cara que nunca pegou uma baranga! Até parece...
- Peguei sim... Mas quem nunca pegou? É até bom, pra acabar com a urucubaca, meu! Moranguinho qualquer um come. Quero ver comer jaca podre! Aí tem que ser macho! Mas de qualquer forma, cai por terra o teu argumento, sobre a mulher...
- Verdade... Mas deve ter mais algum bom argumento, meu! É só pensar um pouco. Peraí...
- Pára com isso, cara. Vamos mudar de assunto, que o papo ta ficando sério demais! Vamos falar de coisa melhor! Que tal aquela estagiária nova do financeiro? Eu pegava, facinho, facinho... Já fiz coisa bem pior, e paguei, ainda por cima. E à vista!
- Cerveja!
- Cara, teu copo tá cheio ainda, seu bêbado!
- Não, seu imbecil! A cerveja! Essa é a resposta, não entende?
- Como assim?
- Cara, a cerveja só pode ser um troço divino, saca? Essa cor dourada, esse gostinho meio amargo... Hummmm! Essa é a prova de que Deus existe! Existe, e é gente fina. Só pode ser isso!
- Cacete... Nunca tinha pensado nisso. E sabe duma coisa? Acho que você tá certo, meu! Inspiração divina! Só pode ser...
- Devíamos escrever uma teoria sobre isso! Com certeza ia revolucionar o pensamento ocidental sobre religião!
- Verdade, cara! Mas e o pensamento oriental?
- Pô... Sei lá... Acho que lá só rola saquê, bicho.
- Verdade... Tinha esquecido.
- Mas pra quê tanto? Mudar o pensamento ocidental já tá de bom tamanho, meu! Ainda vamos ser famosos, cara! Tipo o Aristóteles, e esses caras aí, sabe como?

E assim a conversa continuou neste ritmo frenético por mais quinze minutos, até o namorado da moça das ancas largas, renomado professor de jiu-jitsu, pedir educadamente para os dois se retirarem do bar, a fim de evitar maiores constrangimentos. Pensando nos altos custos dos serviços odontológicos, e já demonstrando sinais de cansaço, os dois resolveram se ausentar do local, sem maiores delongas.
Assim que chegaram a seus respectivos lares, dormiram o sono dos justos, inundados com a felicidade plena de quem acaba de descobrir o sentido da vida. Dali pra frente, tudo ia ser diferente. O mundo fazia total sentido, e a resposta era simples: Cerveja.
A alegria foi suficiente para esquecerem que amanhã seria outro dia, dia útil, dia de labuta, e que a ebriedade genial daria vez ao mal-estar agudo, à aversão a luz, e à tontura generalizada, sintomas típicos do castigo divino, chamado ressaca.
Mas não importava. Aqueles instantes radiantes de felicidade extrema eram suficientes para compensar qualquer desgraça vindoura. Embora um ENO também ajude.
Naquele momento, logo antes de serem vencidos pelo sono, este moralista implacável, a vida se fez simples e compreensível. Saborosa e dourada, como uma boa cerveja, numa noite quente e abafada.

*Por coincidência, um ótimo filme.

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