quarta-feira, abril 01, 2009

Um breve ensaio sobre o tempo

O tempo é um ente realmente fantástico. Pode, simultaneamente, ser a mais vulgar das vulgaridades e a mais nobre das nobrezas, ou então a mais mesquinha das mesquinharias durante anos para tornar-se a mais esperançosa das esperanças na próxima fração de segundo.
É o maior bode expiatório já registrado nos anais da história humana. Afinal, não fosse a alegada falta do mesmo a humanidade faria, por baixo, três vezes mais do que efetivamente faz. Que jogue a primeira pedra quem nunca reclamou da falta de tempo, mesmo sendo este sempre minuciosamente dividido entre todos de forma igualitária e preestabelecida: vinte e quatro horas por dia para cada um até o final dos tempos, se é que haverá um final. O tempo é, em sua essência política, de extrema esquerda.
Mesmo sem qualquer teste de DNA, desconfio ainda de certo parentesco entre o tempo e o acaso, que, aliás, nunca mais foi visto depois que decidiu aventurar-se como grileiro pelas bandas de Rio Branco, no Acre. Há até quem duvide de sua existência. Tanto do acaso quanto do estado do Acre.
O tempo é algo impossível de ser negociado, muito embora os companheiros de classe proletária não costumem aceitar muito bem este conceito, enquanto aguardam ansiosamente pelas dezoito horas, já imaginando o holerite do dia dez.
Afinal, fora eventuais distorções na geometria do espaço e do tempo causadas por certo alemão doidão, das quais não convém comentar por ora, o tempo, brilhantemente definido por Paulinho da Viola como um pássaro de natureza vaga, além de inegociável, é mensurável, líquido, certo, e personalíssimo.
Quem pensa que o aluga, aluga a si mesmo. Nada contra isso, claro, posto que eu mesmo esteja disponível para locação, dependendo basicamente duma questão de número de zeros. Só não estou aceitando contrato de leasing por ainda me restar certo amor-próprio. Mas aviso assim que acabar.
Uma das qualidades mais fantásticas do tempo é que se não há como ganhá-lo, certamente não há como perdê-lo.
E, haja vista que não há como perdê-lo, temo que seja tanto quanto estúpido preocupar-se com o mesmo.
Assim, sinceramente já não dou grande importância ao tempo, que também já não me presta o mesmo zelo de outrora.
Ainda relacionamo-nos, claro, já que não há outra possibilidade. Todavia fico na minha, e ele, até onde sei, fica na dele.
Suportamo-nos, enfim.
Só não sei até quando.

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quinta-feira, novembro 08, 2007

Carta aos ETs - parte um

Carta aberta a todos os seres da espécie que vier a habitar este planeta num futuro longínquo ou próximo (o que acontecer antes), ou que estiverem por aqui de passagem.

Parte um.

Espero que vocês não tenham maiores dificuldades para interpretar o código de escrita utilizado no intuito de transmitir esta mensagem (chama-se português). Até porque, se não o interpretaram, não poderiam estar lendo esta frase ou mesmo a anterior, sendo ambas, portanto, de uma imbecilidade assustadora. De qualquer forma, é bom que mantenham em seus espíritos um nível de imbecilidade razoável durante a leitura destas linhas, pois a matéria em análise nesta ocasião trata justamente das preocupações cotidianas da raça humana.
Estamos no ano de dois mil e sete, contados a partir no nascimento dum cara que se chamava Jesus. Não o conheci, mas pelo que me consta, era boa gente. Anos, meses, dias e segundos são unidades de medida para uma coisa chamada tempo. Tempo, é basicamente uma mania que temos de ficar continuadamente contando os períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133.
Para que os senhores possam entender eventuais distorções nas percepções deste que vos escreve, com a devida vênia, gostaria de me apresentar.
Meu nome é Marcos, mas não é raro ver alguém me chamando por alcunhas como Castor, Moicano ou Rosado, e até mesmo de outras formas quando em expressões genéricas, tais como: ‘Aquele cara alí’, ‘Ei, você aí!’ ou ‘O senhor vai pagar como?’.
Sou nativo de um planeta muito peculiar, que os demais de minha espécie (homo sapiens sapiens) chamam de Terra e dividem e sub-dividem das mais bizarras formas, entre estas, ressalta-se a separação em nações, que são definidas (mediante violência ou grave ameaça) por limites territoriais. A nação cujos limites territoriais eu estou habitualmente inserido, chama-se Brasil.
O Brasil é uma nação não auto-administrada cuja atual gestão é responsabilidade, ao menos em teoria, de um senhor chamado Luís. Luís, que já passou muito tempo na chamada reserva de trabalho, está neste emprego apenas provisoriamente: seu ramo de atuação é, na realidade, a metalurgia. Assim, não convém alongar quaisquer explanações sobre Luís. Continuemos.
Dentro desta nação, existem mais divisões, que se chamam estados, que por sua vez, são divididos em municípios, que são divididos em bairros, constituídos de diferentes ruas, devidamente separadas em lotes, com seus respectivos números. Minha espécie tem uma verdadeira compulsão por criar divisões, rótulos e demarcações. Aparentemente, esta é uma característica da nossa natureza.
Vivo num município que ostenta um nome curioso: Curitiba.
Curitiba é uma cidade grande, mas nem tanto. Tem clima ameno, mas nem tanto. Tem algumas coisas interessantes para se fazer, mas nem tantas. Ao menos, é possível encontrar aqui uma bebida muito saborosa, chamada cerveja. Espero que vocês possam conhecer um dia. A cerveja, não Curitiba.
Curitiba é um local predominantemente encoberto por nuvens cinzas, que passam quase despercebidas pela maioria da população, que desperdiça cerca de cinco sétimos do seu tempo dormindo, ou então, entocada nas escolas, empresas, apartamentos, e preferencialmente em shopings (lugares indiferentes à cor do céu), no intuito se encontrarem para então, curiosamente, não se comunicarem umas com as outras. Nos outros dois sétimos do tempo que resta, algumas vezes saem da toca, para não se comunicarem reunidas em parques públicos.
As crianças da minha espécie, que a propósito, é a predadora mais voraz do planeta, são treinadas desde pequenas para terem muito medo, pensarem o mínimo possível, e sempre se arrependerem após qualquer divertimento. Isso tudo, para que se instaure um nível mínimo de ordem no planeta. Ordem esta, aliás, muito interessante para alguns. Para os outros, que não são alguns, não.
Continua...

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terça-feira, outubro 23, 2007

Chove, mas não molha

Falar sobre o tempo não é necessariamente um desperdício deste.
Consagrou-se como um assunto que sugere certo ócio nada criativo, embora haja neste tema, uma certa magia inegavelmente profética. Às vezes inútil, mas ainda assim reveladora:
- Bom dia, companheiro! Tudo na ordem regular dos acontecimentos?
- Bom dia, jovem! Tudo tranqüilo!
- Será que chove hoje, Valentim?
- Hoje chove. Pode ter certeza.
Dito e feito. Melhor que o SIMEPAR.
Ultimamente, já completo o diálogo com um:
- E que horas?
Nunca se sabe quando um guarda-chuva, uma capa, ou um agasalho será necessário por aqui. Curitiba é uma cidade que sofre de transtorno bipolar climático.
Um tipo de esquizofrenia geográfica. Há quem diga que é culpa do Feng Shui. Vai saber...
De qualquer maneira, é altamente estratégico prever o tempo numa cidade que amanhece a 0°C e geada, meio dia brilha o sol e a temperatura sobe pra para 30°C, e de tarde chove só pra dar uma lição naqueles que ousam sair antes das dezoito horas para evitar o trânsito: Devidamente molhados, terão que enfrentar um fim de tarde cinza, um frio repentino e conseqüentemente, um resfriado.
Tudo bem... Há um certo exagero. Na maioria das vezes o céu só fica cinza o dia todo. Há de se defender Curitiba: É uma excelente cidade pra quem gosta de cinza.
Propícia à poesia depressiva e ao suicídio.
De qualquer forma, falar sobre o tempo é algo interessantíssimo.
Pois afinal de contas, nem todos acertam as previsões. A maioria é como eu: Picareta.
O sol brilha, e as nuvens são raras. Mas não interessa:
É só fazer ares de entendedor, e largar aquele chute. Pior que chute, uma canelada de zagueiro dentro da área na direção do gol (improvável, mas não impossível):
- Acho que vai chover.
Pra completar, o cidadão dá uma respirada, vê a inclinação do sol e a direção do vento e arremata:
- Daqui a pouco. E vai ser granizo. Vou sair antes que o trânsito fique impossível.
Se nem chover, os outros vão pensar: “E quem entende esse tempo doido?”. Mas se chover... Ah, se chover granizo... Se chover granizo, o cidadão passa facilmente por druida, de poderes mediúnicos. O novo profeta da cidade.
Logo, tem-se aí, uma chance de estrelato instantâneo sem grandes esforços. Olhe pro céu e faça uma fé, que pode funcionar.
O problema mesmo é quando há dois ou mais profetas. Aí surgem os argumentos, que facilmente perdem o rigor científico:
- Claro que esfria... Esse vento do sul não me engana. Até o pé-de-limão já tá florescendo.
- Besteira, hoje é dia do padroeiro de Pirapora do Bom Jesus. Não chove nem fodendo.
Assim, muitos recorrem a argumentos técnicos:
- Pode até chover. Mas chuva rápida. Trata-se de uma nuvem da raça cumulus nimbus calvus, de densidade mediana.
Como é fato notório que apenas uma pequena e perturbada parte da população conhece as nuvens por seus nomes científicos, dificilmente alguém retrucaria. A não ser, para dar um blefe maior ainda:
- Claro que não, seu imbecil. A cor avermelhada da luz do sol sugere um ambiente rico em sulfato, o que nem em sonho, cria uma cumulus nimbus calvus! Obviamente, trata-se duma cumulus nimbus incus.
Daí pra frente, tudo pode acontecer. Inclusive nada.
Será que chove hoje?

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